Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

Histórias de Projetos

De apoiadora a realizadora: Black Silence, a primeira campanha de Mariana Cagnin

Batemos um papo com a ilustradora Mariana Cagnin para ter um gostinho dos bastidores do projeto Black Silence. Entre dicas e impressões, Mariana falou sobre as motivações para fazer um Catarse, formas de engajar seu público e “montanha-russa de emoções” que é viver uma campanha.

Você já apoia projetos desde 2014 e tem outros quadrinhos publicados. Qual foi a principal motivação para fazer uma campanha para o Black Silence?

Conheci o Catarse através de outros artistas e quadrinistas que estavam tentando arrecadar fundos para imprimir seus próprios quadrinhos de forma independente. E apesar de já ter publicado quadrinhos independentemente, entendi este como um próximo passo para ter impresso um material profissional de alta qualidade, além da experiência com a própria campanha e de um novo público que se forma através dela. Vi que muitos destes projetos deram certo e foram financiados, então o Catarse pra mim se tornou uma nova possibilidade, e eu só estava esperando mesmo o momento certo e um novo projeto, é claro.

De onde veio a vontade de fazer ficção científica?

Não sei da onde veio ao certo. Eu tinha uma vontade de fazer algo totalmente diferente do que eu vinha fazendo até então, e pensei: por que não ficção científica? No começo eu tive algumas inseguranças por estar fazendo algo completamente novo, mas acho que faz parte do processo. Fiz muitas pesquisas e finalmente encontrei o caminho que parecia certo para mim. No final das contas percebi que o mais importante mesmo é fazer uma boa história, independente do gênero.

Sua história tem várias personagens mulheres e a comandante Ubuntu é uma mulher negra. A representatividade é importante para o seu processo criativo?

Hoje posso dizer que é importante esta representatividade, não só pelo momento de “desconstrução” que estamos vivendo, mas como artista, ser capaz de criar personagens com as quais diversas pessoas possam se identificar de alguma forma. O fato de minha protagonista ser negra é importante tanto pra mim quanto pra muitas outras pessoas, principalmente mulheres, mas na histórias isto não é apenas uma escolha aleatória, todas as escolhas que fiz fazem sentido dentro da história.

Como você tem visto (e vivido) a presença feminina na cena de quadrinhos brasileiros?

Há umas semanas participei do evento 2º Encontro Lady’s Comics e tive uma experiência real de que tem muita mulher produzindo quadrinhos por aí. Eu meio que já sabia disso porque acompanho várias pelas redes sociais, mas estar lá vendo tudo acontecer ao vivo me deu um novo panorama desse cenário. Ele pode não ser ideal (ainda) mas estamos caminhando em direção a isso.

Desde quando você está preparando sua campanha? Como foi essa preparação?

Na verdade, desde quando comecei a apoiar projetos no Catarse, eu venho acompanhando o andamento delas, analisando o que deu certo ou não, porque eu já tinha interesse na plataforma. E o Black Silence também eu já estava produzindo há um tempo, mas eu estava um pouco sem motivação também. Porém, minha decisão de fazer uma campanha foi um pouco súbita, eu descobri que tinha conseguido uma mesa pra um evento grande em São Paulo, e eu tive aquele sentimento que “se não for agora, não sei quando mais vai ser”. Então comecei a montar meu projeto, começando pelos orçamentos de gráfica e outros gastos que são os mais complicados, assim digamos. Pesquisei muito, conversei com amigos que já haviam feito campanha, peguei dicas, montei um cronograma, e então finalmente comecei a divulgar nas minhas redes sociais o que estava rolando. Posso dizer que nesse sentido “fiz a lição de casa” e sem essa preparação, mesmo que um pouco corrida, a chance seria maior de ter me perdido no meio disso tudo.

Você considera que a sua experiência como apoiadora te ajudou na hora de criar o projeto?

Com certeza. Como disse antes, eu acompanhei a campanha de diversos artistas, principalmente de quadrinhos, e pude realmente ver o que funcionava ou não. Claro que não existe uma regra, nem toda campanha é igual, mas o mais importante pra mim era criar uma campanha realista, que atendesse as minhas expectativas e também as expectativas do público que poderia estar interessado no meu projeto.

Teve algum aspecto do projeto (vídeo, descrição, recompensas…) que foi mais importante para você? Por quê?

Eu me envolvi muito com todas as etapas do projeto, mas o vídeo foi o mais decisivo pra mim. Fiz um pequeno “teaser” no começo do vídeo que exprimia muito do clima que eu estava criando pro Black Silence, foi quando pensei… “É isso!”. Se ainda restava alguma dúvida sobre o que eu estava fazendo, neste momento senti que finalmente estava no caminho certo.

Você tem uma comunidade bacana de seguidores no facebook e no Youtube, como foi a recepção ao seu projeto? Teve alguma estratégia de divulgação que foi especialmente bem sucedida? Algo que não deu certo?

A recepção no geral foi muito boa. Fiquei surpresa com a quantidade de gente que se identificou muito com o fato de ser uma ficção científica e já estava animado com o projeto mesmo antes de ler o primeiro capítulo (que disponibilizei para leitura online). Outros se interessaram porque já acompanhavam meus outros quadrinhos, e ainda outros que viram o projeto como uma forma de apoiar meu trabalho, mesmo sem ter interesse por quadrinhos necessariamente. Quanto à divulgação, eu já tinha certa noção do que funcionava em cada rede social, e a minha estratégia era dar um foco diferente em cada uma, produzindo conteúdos exclusivos. No geral, é preciso ter cuidado para atingir o maior número de pessoas possível sem parecer forçado ou cair na linha do “spam”. Também me empenhei em conversar com algumas pessoas diretamente, apresentando o projeto em detalhes e de uma forma mais pessoal.

Você pode contar um pouquinho como foi a sua percepção de cada fase do projeto? Como foi o lançamento? Como está essa reta final?

Vou ser sincera, a campanha toda em si é uma montanha russa emocional. O lançamento é bem positivo quando você se prepara bem, porque tanto família, amigos e os fãs mais interessados apoiam logo na largada, e você vê os números crescendo bem rápido. Depois, tinha momentos que eu sentia que estava indo bem, em outros, parecia que ia dar tudo errado. Tentei não pensar muito nisso e seguir em frente, continuar com a estratégia de divulgação, reforçar onde eu achava que poderia melhorar. A verdade é que o tempo passa e a chance é grande de você nunca ter a certeza de que realmente vai dar certo (a não ser que você alcance a meta em pouco tempo, por exemplo). Cada apoio recebido é uma nova vitória, sabe? Como já estamos no finalzinho dessa campanha, eu posso dizer que a primeira metade foi a mais difícil, principalmente porque os números são ainda bem pequenos, e isso pode dar um pequeno… desespero. Algo me diz que ainda vou sofrer um pouco nessa reta final. Até dar os 100% não vou ficar tranquila, né? Mas a possibilidade de “não conseguir” hoje não é tão desoladora quanto era no começo.

Pra encerarmos: que conselho você dá para pessoas que estão se preparando para fazer um Catarse?

Pesquise muito! Converse com artistas que já fizeram Catarse, estude campanhas anteriores, mas principalmente: defina um projeto que seja realista. Depois da elaboração do projeto, a parte mais essencial da campanha é sem dúvida a divulgação. Certifique-se de que todas as pessoas próximas de você saibam do seu projeto e o ajudem a divulgar. Isso faz muita diferença, porque você vai conseguir apoios onde não esperava, e vai ter um arranque inicial interessante. Fora todas estas questões técnicas, acho que todo autor tem que acreditar muito no que está fazendo, porque é esta confiança e a paixão que imprime no projeto que acaba influenciando as pessoas também.