Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

Geral / Histórias de Projetos

Crowdfunding e Fab Labs: comunidades fortes para tirar projetos do papel

Uma bicicleta, um livro de poesias e equipamentos de biotecnologia. Pode parecer brincadeira, mas todos esses objetos foram produzidos no mesmo lugar: um laboratório de fabricação digital em São Paulo, o Garagem Fab Lab. Lá, com auxílio de máquinas como impressoras 3d, fresadoras e cortadoras a laser, é possível fabricar quase qualquer coisa.

Um dos primeiros Fab Labs do Brasil, o Garagem foi fundado em 2013. “Ficamos surpresos positivamente com a experiência porque conseguimos fazer crescer uma comunidade muito interessante”, conta Eduardo Lopes. A comunidade citada por Eduardo, no entanto, está cada vez maior, e o antigo imóvel acabou ficando pequeno. Para financiar a reforma do novo espaço para o Garagem, foi criada uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. “Temos que poder receber mais pessoas, com perfis diferentes”, explica.

Bike de Quinta, produção de bicicletas no Garagem Fab Lab

Bike de Quinta, produção de bicicletas no Garagem Fab Lab

Ao funcionar como ferramenta para tirar projetos do papel, os Fab Labs têm propósitos semelhantes a plataformas de crowdfunding como o Catarse. Eduardo Lopes concorda com o paralelo: “Existe uma relação forte e uma sinergia muito grande se você juntar as duas coisas [crowdfunding e Fab Lab]. O cara tem uma ideia, apresenta e discute no Fab Lab, fabricamos o protótipo e isso emenda num crowdfunding. Assim, muita gente pode tirar ideias do papel”.

Outra semelhança entre Catarse e Fab Labs é a relação com o conhecimento aberto. Assim como abraçamos a colaboração desde nosso código open source à produção de conteúdo gratuito sobre crowdfunding, não basta fabricar quase qualquer coisa para ser um Fab Lab. Para participar da rede mundial de laboratórios nascida no MIT, é necessário seguir uma série de princípios. Mais do que requisitos técnicos, valores:  “O objetivo dos Fab Labs é democratizar o acesso a tecnologia e o conhecimento aberto”, explica a designer Cláudia Bär, 26, fundadora e CEO do Fab Lab Floripa.

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Fab Lab Floripa

Além de cursos pagos e serviços como prototipagem de objetos, os laboratórios organizam eventos com entrada franca. “Obrigatoriamente, o Fab Lab tem que disponibilizar seu espaço para atividades gratuitas. Uma vez por semana, em geral, há workshops em que a pessoa paga só pelo material que utiliza nas práticas com os equipamentos”, conta Cláudia. “A gente trabalha com empresas, com o poder público (veja oficina do Garagem com crianças do Parque Novo Mundo) – não tem muita diferença. A grande questão é que o espaço tem que ser aberto, quanto mais aberto melhor”, conta o fundador do Garagem Fab Lab, o arquiteto Eduardo Lopes, 41.

O maior recurso é humano

Se dizemos que o crowdfunding é mais pela aproximação das pessoas do pelo dinheiro, os Fab Labs por sua vez afirmam que, mais do que máquinas modernas, o essencial é o material humano. “A tecnologia é só um meio, a linguagem. O que importa são as ideias das pessoas”, diz a diretora da rede Fab Lab Brasil, Heloísa Neves, 35, que tem formação em arquitetura, comunicação e semiótica e design. “Desde o começo no Fab Lab Floripa eu vejo as pessoas como nosso principal recurso. As máquinas são só uma ferramenta”, concorda Cláudia Bär, que além de gerir o Fab Lab Floripa é diretora de projetos da Fab Lab Brasil.

Mas quem forma essa comunidade? “Os Fab Labs são um ponto de encontro entre pessoas de diversas áreas. Além de hackers, makers, designers, arquitetos e engenheiros, surgem profissionais de atividades inesperadas, mas que têm uma ideia de um produto e recorrem às Fab Labs para obter ajuda”, conta Cláudia. “Isso fortalece a economia criativa local”, ressalta.

Oficina com crianças do Parque Novo Mundo . Impressão 3D Foto Labmóvel (Lucas Bambozzi)

Oficina com crianças do Parque Novo Mundo . Impressão 3D Foto Labmóvel (Lucas Bambozzi)

“Hoje, se você tem uma ideia de um produto, leva essa ideia pro mercado e tenta captar, mas sem ter um protótipos fica difícil”, explica Eduardo. Antes dos Fab Labs, para prototipar um produto era preciso pedir às fábricas, que só produzem em escala. Um alto custo para fabricar milhares de unidades de um produto que não está pronto e ainda precisa ser estudado. “No Fab Lab, você pode pegar essa ideia e tangibilizar. Você junta o acesso às ferramentas de fabricação e a experiência da comunidade, pessoas com conhecimentos diferentes sobre design, eletrônica, tudo no mesmo lugar”, completa. “Vejo o sorriso no rosto de quem vai lá [no Fab Lab Floripa] e consegue fazer um produto que achou que era impossível”, conta Cláudia.

A rede nacional

A Fab Lab foi criada em 2012, por sugestão do criador do projeto que originou as Fab Labs, o acadêmico norteamericano Neil Gershenfield. “Numa visita ao Brasil, ele nos aconselhou a criar a rede, porque fortaleceria o movimento aqui”, conta Heloísa. No ano passado, houve um “boom”, nas palavras da diretora, de 3 para 12 Fab Labs brasileiras, e a previsão é de que o aumento seja ainda maior nesse ano.

Reunião da rede Fab Lab Brasil no Garagem. À esquerda, de verde, Cláudia Bärs; mais ao centro, à direita do cabo azul e vermelho, Heloísa Neves, de preto; Eduardo Lopes, também de preto, está logo atrás do notebook.

Reunião da rede Fab Lab Brasil no Garagem. À esquerda, de verde, Cláudia Bär; mais ao centro, à direita do cabo azul e vermelho, Heloísa Neves, de preto; Eduardo Lopes, também de preto, está ao centro com uma espingarda que atira elásticos nas mãos.

“O papel da Fab Lab Brasil é orientar o fucionamento das Fab Labs do nosso país, além de realizar a articulação entre rede nacional e internacional”, explica Cláudia Bär. A troca é constante, conta Eduardo Lopes, do Garagem: “Você faz parte de uma rede de 500 laboratórios espalhados pelo mundo. Sempre escrevo para outros Fab Labs procurando projetos interessantes que podem ser compartilhados”. Graças a rede nacional, na Bienal de Design 2015, que acontece em Florianópolis em junho, o Fab Lab Floripa e mais outros quatro Fab Labs vão realizar ações paralelas ao evento, do qual o Catarse também fará parte.

Segundo Heloísa Neves, no contato com a comunidade internacional os estrangeiros se impressionam com a quantidade de Fab Labs independentes no Brasil. “No exterior, a maior parte dos laboratórios está dentro de instituições ou de iniciativas do governo. Só alguns se arriscam sozinhos. No Brasil, o processo foi o contrário, houve pouco incentivo. Eles perguntam: ‘vocês não gostam de ajuda?’, digo que não gostamos de burocracia (risos). Preferimos pouco dinheiro e muita liberdade do que mais dinheiro e muita burocracia”, revela.

Abertura x rentabilidade

Oficina no Garagem Fab Lab

Oficina no Garagem Fab Lab

“Quanto mais ‘business’ você fizer seu Fab Lab, mais fechado ele vai ser, e dessa maneira acaba morrendo. Nosso desafio é fazer um Fab Lab aberto,  100% do tempo, a um custo muito acessível ou gratuito para a maioria das pessoas”, conta Eduardo Lopes. “O Fab Lab é uma porta de entrada, um ecossistema aberto. Ao redor desse ecossistema florescem coisas, pensamos em abrir outras empresas, cursos, escolas, todas ideias que a gente está maturando e agora no espaço novo vamos poder fazer. Ideias lucrativas podem crescer no Fab Lab, seja um objeto ou empresa, e essa ideia depois ganha vida própria e sai”, completa.

Para que mais pessoas possam aprender, inovar e tirar ideias do papel, o Garagem Fab Lab precisa de um espaço maior. Colabore na campanha de financiamento coletivo!