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Do Catarse a Cannes: uma história sobre independência, coragem e conquistas

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Crédito: Raquel Espírito Santo

Se alguém falasse para Tiago Vieira que o primeiro roteiro que escreveu, em 2008, o levaria a Cannes, ele provavelmente não acreditaria. Só que aconteceu. “Quando parei de me preocupar com canalhas”, curta escrito e dirigido pelo goiano, financiado via crowdfunding no Catarse, foi selecionado para o Short-Film Corner do Festival de Cannes de 2015.

“A ficha ainda não caiu”, conta. Os sete anos que separam a produção do roteiro da seleção de Cannes foram uma longa e trabalhosa jornada, que serve de inspiração para qualquer um com vontade de tirar um projeto do papel.

O início

O curta de Tiago Vieira, 34, é inspirado em uma história em quadrinhos de Caco Galhardo, homônima ao filme, publicada na edição de abril de 2008 da revista Piauí. As tirinhas contam a história de um sujeito que cansa de se decepcionar com a política e resolve se alienar. A tarefa, no entanto, não é tão simples. Como num processo de desintoxicação, o personagem – presumidamente o próprio cartunista – vai se livrando aos poucos do noticiário político até, enfim, conseguir de fato parar de se “preocupar com canalhas”.

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Trecho do quadrinho publicado na Piauí

Fascinado com a história, o ainda iniciante Tiago resolveu escrever um roteiro baseado nas tirinhas, “mais como exercício”, conta. Terminada a tarefa, achou que o trabalho tinha ficado bom. “Por que não produzir um filme?”, pensou. Sem hesitar, procurou Caco Galhardo. Enviou o roteiro por email e pediu autorização. Caco gostou do texto. Depois de alguns meses, os dois se encontraram no escritório do cartunista.

“Não dá pra pedir dinheiro pro governo”

Já na primeira reunião com Caco Galhardo  – que Tiago filmou e utilizou no vídeo (veja abaixo) de apresentação do projeto –, a questão do financiamento do curta surgiu como um tema preocupante. Não fazia sentido recorrer a editais e leis de incentivo, já que o filme tratava justamente de se distanciar de governos. “Sabia que não dava pra ir atrás de dinheiro público, o filme batia de frente com isso. Pensei: ‘não tenho dinheiro nenhum’. Engavetei o projeto”, conta Tiago. Era o início de 2009.

Engavetado, mas não abandonado

“Comecei a ver projetos de filmes no Catarse e, em 2013, pensei nessa possiblidade. Peguei o material que tinha gravado em 2009 e montei um vídeo. Mandei para o Caco e falei ‘Olha, tô afim de botar no Catarse. O que você acha?”. A resposta do cartunista foi animadora: “Ele disse: ‘É isso mesmo, acho que é o caminho’”, conta Tiago. Caco Galhardo ofereceu ainda tirinhas como recompensas para apoiadores, aceitas prontamente pelo cineasta.

Mandei para o Caco e falei ‘Olha, tô afim de botar no Catarse. O que você acha?’. Ele disse: ‘É isso mesmo, acho que é o caminho’”

Quando colocou seu projeto no ar, em junho de 2013, Tiago enfrentou mais dificuldades do que imaginava. Era a época dos protestos contra o aumento da passagem de ônibus. Inicialmente, pensou que isso poderia ajudar na divulgação do filme, por estar relacionado ao tema do enredo, mas as discussões sobre as manifestações monopolizaram a internet. “Ninguém queria saber de filme nenhum”, conta.

Matheus Nachtergaele, Tiago Vieira (o diretor), Dhyana Mattos, Rafael Farinas e Pablo Escajedo

Matheus Nachtergaele, Tiago Vieira (o diretor), Dhyana Mattos, Rafael Farinas e Pablo Escajedo – Crédito: Marina Bitten

“Achei que seria mais fácil, que era só botar o projeto e a coisa acontecia sozinha. Percebi que a verba viria do meu esforço”. Próximo da metade da campanha, preocupado ao ver que a maioria das pessoas que conhecia já tinha apoiado o projeto, Tiago intensificou o trabalho de divulgação. “Fui atrás de gente da área, famosos, pessoas que nem conhecia, e apresentei o projeto”. Ele atribui o sucesso da captação a sua perseverança: “Foi um trabalho de divulgação sem parar. Não adianta mandar uma mensagem geral, falando ‘olha, tô com esse projeto’. Tem que ser individual, dedicado, falando com cada um”, explica.

Seus esforços garantiram não apenas que a meta fosse alcançada, mas também o aproximaram de figuras que assumiram funções fundamentais no filme. Um dos procurados pelo cineasta foi o ator Matheus Nachtergaele. “Apresentei o projeto pra ele, ele disse que achou muito interessante e perguntou: ‘E aí, já sabe quem vai fazer o João Carlos (protagonista do filme)’? Sem nem pensar, falei: ‘Você’. Ele disse que ficava honrado, que queria conversar melhor”. Como é possível ver nas imagens do filme, Matheus aceitou o convite.

“Tá afim de fazer? Mete a cara. Sim, a lei de incentivo só beneficia quem tem nome. E aí, você vai ficar parado? Pare de reclamar e vá buscar uma alternativa”

O curta foi financiado com a ajuda de 213 pessoas que levantaram juntas mais de R$ 34 mil. A mensagem de Tiago Vieira para quem quer realizar um projeto é bem direta: “Tá afim de fazer? Mete a cara. Escuto um monte de gente que quer produzir e aí esbarra numa coisa de reclamar, ‘nunca consigo, a lei de incentivo beneficia só quem já tem nome, bla-bla-bla’. Sim, a lei de incentivo só beneficia quem tem nome. E aí, você vai ficar parado? Pare de reclamar e vá buscar uma alternativa”.

Outro ponto importante para quem pretende recorrer ao financiamento coletivo é caprichar na apresentação. “Quando fui falar do filme pro Matheus [Nachtergaele], mandei o link do Catarse”, conta. “Tudo depende da sua vontade. O Catarse é um caminho para sua independência de leis de incentivo, patrocínio. É fazer”, completa.

Próximos passos

 

Além do Short-Film Corner, Tiago inscreveu o filme em outras três categorias do festival de Cannes, ainda sem resultado definido. Ele pretende enviar o curta para mostras do mundo todo e do Brasil. Ainda faltam alguns detalhes para que o filme seja completamente finalizado. “Mandei pra Cannes uma versão 99% pronta”, explica.

No elenco, além de Matheus Nachtergaele, estão figuras como Paulo Miklos, Otto e Nilton Bicudo. “O filme foi ficando cada vez maior”, conta. Ele diz que o clima nas gravações foi tranquilo: “Filmamos em uma semana. Foi difícil conciliar a agenda de todo mundo, mas deu tudo muito certo, parecia o Barcelona jogando (risos). Depois de quebrar o gelo na primeira diária, foi tudo numa boa”. “Isso para mim [ter realizado o filme] é um presente. Independente de qualquer coisa que venha a acontecer, é uma imensa conquista”, conclui.

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