Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

Histórias de Projetos

Entrevista com as realizadoras do projeto “Jornada pela Democracia”

Conversamos com Guiomar Silva Lopes e Maria Celeste Martins, idealizadoras do projeto “Jornada pela Democracia”, que já bateu todos os recordes do Catarse antes mesmo do seu término. A ideia para a campanha de arrecadação partiu das ex-companheiras de cela da presidenta afastada Dilma Rousseff à época da ditadura. Celeste e Guiomar contam como a proposta se desenvolveu, comentam o sucesso da campanha e defendem o que a presidenta deve priorizar caso volte ao Planalto. Leia a entrevista, na íntegra, abaixo:


Relação com Dilma


No vídeo de divulgação do projeto, vocês comentaram da amizade entre vocês e a presidenta, desse vínculo que vocês construíram durante a época da Ditadura. Vocês podem comentar um pouco mais sobre como é essa relação entre vocês? Como ela foi mantida ao longo de todos esses anos?

Maria Celeste Martins – Eu conheci a Dilma na clandestinidade quando vim de Porto Alegre pra cá [para São Paulo] e ela veio deslocada já do Rio [de Janeiro], porque já tinha ido de Belo Horizonte pro Rio e do Rio pra cá, isso em 1969. A gente conviveu na clandestinidade e militou até ela ser presa, no início de 1970. Eu fui presa no final de 1970 e a gente voltou a se reencontrar na cadeia e desenvolveu uma amizade muito muito grande, mesmo pós cadeia, e essa amizade se manteve até hoje, mesmo que a gente tenha se afastado pela própria condição dela de presidenta. A amizade se mantém, embora não com as mesmas características. 

Guiomar Silva Lopes – Não foi mantido com muita regularidade porque eu permaneci em São Paulo e a Dilma desenvolveu a sua vida em Porto Alegre, então havia aí uma questão importante de geografia. Eu tinha bastante contato com a ministra Eleonora [Menicucci, ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres], que ficou aqui em São Paulo, então havia uma oportunidade de a gente manter um vínculo mais próximo e manter encontros frequentes.

Mas eu acho que o vínculo [com a presidenta Dilma] acaba ultrapassando, porque ele se estabelece primeiro numa situação de identificação ideológica bastante forte e também em cima dessas questões que nós vivemos de tortura, da prisão. Os encontros não são uma questão tão forte. Isso se estabelece e não se desfaz mesmo com a distância e cada vez que a gente se revê é um encontro carregado de emoção sempre, sempre, sempre. É um reviver de emoções sempre muito forte.

 

O financiamento coletivo como ferramenta

A(s) senhora(s) já conheciam o financiamento coletivo? Já tinham ouvido falar?

Guiomar – Na verdade, eu não conhecia. Foi bastante importante conhecer essa proposta, não só os projetos, como [a ferramenta] torna muito mais transparente o que se estabelece em termos de doação, de resultados. Então foi muito bom ter conhecido o sistema.

De onde surgiu a ideia de realizar um projeto como esse?
O que motivou vocês a levarem esse projeto adiante?

Guiomar – Diante de todas as pressões, discriminações, ações ilegais e injustas que a presidenta Dilma está sofrendo, a gente se mobiliza, se preocupa e nós resolvemos então partir para uma ação. Eu sugeri fazer uma proposta como essa, quem sabe uma campanha de doação e conversando com a ministra Eleonora, ela apoiou a ideia, ela achou que seria importante, e isso deu start à continuidade para a proposta poder se concretizar.

Como foi o processo de decisão de vocês?
Por que optaram por colocar um projeto desse numa plataforma de financiamento coletivo?

Guiomar – Porque eu acho que torna mais transparente todo o processo, deixa claro e fica estabelecido mais ou menos pra gente poder acompanhar. Enfim, foi uma sugestão de algumas pessoas próximas e eu realmente não conhecia, mas outras pessoas já tinham essa experiência. Então nós acatamos isso e achamos que é um sistema seguro e que daria toda uma segurança para os doadores, para o público em geral.

Vocês esperavam atingir a meta tão rapidamente?
Foi o recorde do Catarse: R$ 370.723,82 em 24h

Guiomar – Foi uma surpresa, honestamente. A gente não esperava que, mesmo com uma divulgação ainda um pouco restrita, pudesse haver uma mobilização tão grande. Na verdade existe uma ansiedade, existe uma expectativa muito grande das pessoas que apoiam e que sempre apoiaram este governo de estarem mobilizadas e quererem participar. Eu acho que isso foi muito bom, mas foi surpreendente que em tão pouco tempo o projeto desse uma resposta rápida.

Celeste – Realmente foi uma grande surpresa e acho que isso demonstra a importância em primeiro lugar da atuação do site [o Catarse] em si, que me parece um instrumento poderoso de comunicação nesse sentido. E depois vem a questão de ter conseguido mobilizar um apoio enorme a ela, que está um pouco sozinha, pelo menos é o que parece, na medida em que o cerco do governo golpista vem cada dia mais aumentando. Isso foi muito importante em termos de demonstrar o apoio e a importância política que ela tem. A campanha, nesse sentido, foi muito bem sucedida. A gente não esperava que fosse atingir a meta praticamente no terceiro dia.

Qual a mensagem que vocês tem para as pessoas que estão dizendo que tudo isso é uma operação de lavagem de dinheiro?

Guiomar – É uma coisa absurda, descabida. Primeiro porque esse processo foi tão rigidamente estabelecido. São duas pessoas que abriram uma conta e que não têm nenhum comprometimento com nada que possa desabonar suas condutas.

As doações são pessoais, são doações legais, são pessoas doando por uma finalidade absolutamente específica. Nós podemos transformar isso em uma coisa muito mais transparente à medida em que o projeto for sendo operacionalizado de fato. É uma acusação, como todas as outras, completamente descabida.

Celeste – Isso são ainda as mentiras e injustiças que estão fazendo contra ela desde que começou esse processo. É mais uma tentativa de tentar incriminá-la.

Financiamento coletivo e Política

Nós fizemos um levantamento de dados sobre o perfil dos apoiadores e percebemos que houve um aumento muito significativo na média de idade de apoiadores acima dos 45 anos, o que não é do perfil do Catarse. Em geral, nossa faixa etária majoritária é de pessoas com até 44 anos. O que você diria a essas pessoas de faixa etária entre 20 e 44 anos para aderirem a essa campanha?

Guiomar – Eu acho que essas pessoas talvez não estejam tão próximas de todo esse processo do que a presidenta está sofrendo. É muito importante que essa juventude tenha uma ação concreta e possa se posicionar contra o golpe, possa dar um apoio efetivo à presidenta na tentativa de restabelecer o seu mandato que foi violentamente e ilegalmente tirado e ela teve que se afastar.

É super importante porque a juventude tem um compromisso com o futuro do país, com as ações que se desenvolveram no governo da presidenta e também no governo do presidente Lula. Então talvez por não estarem acompanhando, não terem tido acesso à divulgação, estão um pouco distanciados, mas é fundamental que eles assumam essa luta.

Vocês acham que o financiamento coletivo pode ser usado nas futuras eleições como uma forma de financiamento de campanha por indivíduos, de maneira mais sistemática?

Guiomar – Isso pode ser um instrumento importante nessa nova etapa em que as doações empresariais e de pessoas jurídicas não são mais válidas. Pode ser sim muito importante.

No caso de a presidenta Dilma voltar, o que vocês acham que ela não pode deixar de fazer nos dois últimos anos de mandato?

Celeste – Eu acho que ela tem que retomar o compromisso fundamental que ela sempre teve, e que ela exerceu no primeiro mandato, que é com o povo brasileiro. Isso é indispensável que ela faça.

Guiomar - É importante ela retomar as propostas de campanha, que são compromissos extremamente importantes para a população. Nós sabemos que toda a desigualdade social depende de políticas públicas, políticas adequadas para a população mais pobre. Então eu acho que o compromisso dela vai ser certamente nesse sentido.