Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

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Financiamento Coletivo: a rede de segurança da arte

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No começo, a ideia da editora Lote 42 era viver só de financiamento coletivo. Não foi pra frente, mas outra genial sim: dar um desconto de 10% a cada gol da Alemanha na semifinal contra o Brasil na Copa 2014… Depois de cumprir bravamente sua palavra e entregar todo os pedidos com 70% de desconto, a editora lançou a campanha que estava engatilhada antes da Copa para trazer o quadrinista uruguaio Gervasio Troche ao Brasil para o lançamento do seu livro Desenhos Invisíveis. Neste post, João Varella, um dos criadores da Lote 42, fala do sucesso da aguardada experiência no financiamento coletivo e porque foi melhor esperar dois anos. Leia abaixo.

Por João Varella

Quando Thiago Blumenthal e eu criamos a Lote 42, em dezembro de 2012, imaginamos montar uma editora só de crowdfunding. Logo nos primeiros dias da editora, fizemos uma reunião. Na mesa havia vários papéis, cada um com uma ideia de recompensa. Para eles não voarem, usamos canequinhas de submarinos do Bar Alemão, de Curitiba.

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Mas não deu certo. Pessoas próximas nos aconselhavam a não ir em frente. Ofereciam explicações variadas, mas o mínimo denominador comum delas era “vai que dá errado, que mico”.

Fora o fato que, analisando hoje, nossas propostas de recompensas eram sofríveis. Atualmente, o crowdfunding já tem uma cultura própria. Era melhor ter estudado mais os projetos bem-sucedidos e tentar fazer com que os valores e os prêmios fossem mais próximos da realidade dos potenciais apoiadores. Mais de um ano depois e cá estamos com nosso primeiro crowdfunding. Tinha risco de dar errado. Caminhamos na corda bamba das empresas iniciantes tal qual um personagem desse artista uruguaio.

Felizmente, o povo gostou da ideia e o sistema do crowdfunding se provou uma segurança a mais para a editora não dar com os burros n’água. Mas chegamos nesta nova fase de um jeito diferente ao dos primórdios da editora. A campanha não é para bancar a impressão do livro. Hoje, temos estrutura para poder arcar com o custo de gráfica — por sinal, para quem não está familiarizado com o mundo editorial, é um custo pesado na vida de um livro, pois envolve cifras altas. O livro Desenhos Invisíveis sai de qualquer jeito. Trazer o autor para o lançamento era o desafio.

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E não é que deu certo? Calculamos a meta de R$ 4 mil para trazer o Troche de Montevidéu para São Paulo, valor que envolve custo de avião, hospedagem, recompensas, envios e taxa do Catarse. E o que fazer se juntássemos mais? Pois outra cidade: Rio de Janeiro. A ideia de fazer algo escalonado nos empolgou. Mas queríamos envolver os apoiadores de alguma forma. Foi aí que pensamos numa terceira meta (e outras, por que não?) em que eles pudessem escolher o destino. (No presente momento, falta pouco mais de R$ 1 mil para chegar a esse objetivo.)

Outro aspecto fundamental foi pensar nas recompensas. Procuramos criar, para cada valor, um prêmio justo, e que empolgasse. Não queremos depender só de as pessoas acharem a campanha muito boa — queremos que eles gostem dos prêmios que escolheram. Nesta imagem há um exemplo:

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E é bom não esquecer que o sucesso desta campanha se deve, não só às questões acima, mas à força do trabalho do Troche. Ele é o grande responsável aqui que, com tão poucos elementos, consegue emocionar e provocar reflexões. Faça a planificação que quiser, mas se não tiver um trabalho consistente por trás, a coisa não anda.

Estamos na metade da campanha e nossa percepção é que o financiamento coletivo revelou-se uma excelente forma para uma editora independente proteger seus escassos recursos. Quem não atinge a meta não sofre dano algum em termos materiais. Talvez um pequeno ferimento no ego, como se não fosse natural errar e falhar também. Tenho certeza de que essa lógica também serve para outras áreas culturais onde não dá para errar. O crowdfunding é a rede de segurança da arte.