Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

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Financiamento Coletivo não é modismo, é necessidade – A estreia do bloco funk do Rio

Foto: André Mantelli

No desfile da Apafunk financiado no Catarse, vassouras ao alto em apoio aos garis em greve no Rio / Foto: André Mantelli


Eram 18h da primeira sexta-feira depois do Carnaval no centro do Rio de Janeiro. Não fosse por algum resquício de confete e lixo que permaneciam no chão devido à greve dos garis da cidade, ficava difícil dizer que aquelas ruas tomadas por engravatados apressados, pontos de ônibus lotados e trânsito caótico tinham sido palco de enormes festas a céu aberto.

Da minha caminhada pela Av. Rio Branco da Cinelândia até a entrada do Largo da Carioca nada sugeria que em poucos metros a folia ressuscitaria no terceiro dia para homenagear um dos maiores e mais genuínos movimentos musicais da cidade, porém, ainda sem muito espaço na festa de Momo: o batidão do funk!

A Associação de Profissionais e Amigos do Funk, a Apafunk, foi criada em 2009 para valorizar o movimento e desde então promove rodas de funk em espaços públicos da região central do Rio. Para financiar seu desfile de estreia no Carnaval 2014, o grupo fez uma campanha de financiamento coletivo no Catarse.

O bloco se concentrava desde o meio da tarde. Ao chegar à Carioca, já encontrei a Apafunk posicionada com os instrumentos comprados com os R$ 5.500 doados por 107 pessoas, 37% acima da meta inicial de R$ 4 mil. Apesar de já serem usados desde meados do ano passado nos ensaios da bateria, os instrumentos tinham cara de novos, os metais ainda reluziam e os sons preenchiam o largo.

Um dos grandes trunfos da campanha da associação de funkeiros foi sua antecedência. Muitas vezes o financiamento coletivo é a última alternativa que um produtor tem para colocar sua ideia no ar. Mas isso não precisa dizer necessariamente que a campanha tenha de ser feita de maneira corrida e com o prazo apertado. Um bom planejamento é essencial para o sucesso da arrecadação. Eles abriram o projeto na plataforma em abril de 2013. Em junho, já estavam com a grana para adquirir os instrumentos e inciar os ensaios. Tinham tempo de sobra para eventuais imprevistos e fazer uma campanha sem corda no pescoço.

Quando o desfile começou, o público não era dos maiores. A maioria das pessoas em volta eram apenas trabalhadores em passos certeiros rumo ao lar antes que a chuva anunciada chegasse. A ameaça de temporal que apressava quem tinha medo de ficar inundado no centro da cidade também afastou muito do potencial público do bloco. Como costumam dizer por ai, “carioca parece que é feito de açúcar, se chover fica em casa”. Gostaria de desmentir o estereótipo, mas devo admitir que eu também ficaria em casa por causa da chuva, não fossem as enormes vontades de rebolar meu popozão e ver um projeto que passou pelo Catarse se concretizar. Sorte que resisti e fui.

Foi um animado, plural e combativo desfile. A escolha de local e horário fez com que a massa funkeira fosse engrossada por diversos transeuntes que pararam pra curtir o som. Desde desinibidos moradores de rua até executivos que aos poucos arriscavam tímidos passinhos. O ponto alto do desfile sem dúvida foi os diversos momentos de apoio à greve dos garis. Entre o público era possível ver várias pessoas vestidas de laranja (cor do uniforme dos trabalhadores de limpeza urbana do Rio) e com cartazes em homenagem aos grevistas. Integrantes do bloco também impunham vassouras para o alto e ocasionalmente puxavam gritos como “O gari é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo”.

Esse posicionamento diante dos movimentos populares é uma das marcas da Apafunk. Uma entidade que em sua atuação sempre se mostra ligada à realidade da cidade, seja no asfalto ou na favela. Por isso, muitas vezes suas ações e discursos vão de encontro ao posicionamento dos governos municipal e estadual, que são, através de editais, os maiores financiadores do Carnaval de rua, além do patrocínio privado de empresas parceiras.

Segundo Lucas Pedretti, que acompanha o trabalho da Apafunk há anos, o bloco talvez não fosse possível se tivesse que ser financiado por um dos meios mais tradicionais: “Dentro da proposta atual, acho que haveria grandes chances dele não ser contemplado por um edital. Por ter uma postura muito mais combativa do que aquela que agrada a esses possíveis financiadores. Portanto, pra ser contemplado, provavelmente o bloco teria que mudar sua essência. Nesse sentido, acho sensacional a coragem deles de preferir se manter fiéis ao que acreditam e buscar outras formas de apoio.”

Mais uma vez o financiamento coletivo se mostrou uma importante ferramente para colocar nas ruas (nesse caso literalmente) uma ideia que poderia não ter acontecido de outra maneira. O governo e as empresas têm que ter sim o seu papel na difusão da cultura e projetos criativos em nosso país, mas talvez, se ficarmos presos só a essas formas de financiamento só sejam reproduzidas os mesmos tipos de ideias, para os mesmos públicos e atendendo as mesmas demandas. Parafraseando Mc Bob Rum no refrão de Rap do Silva, assim como a expressão cultural do funk, em muito casos o “financiamento coletivo não é modismo, é uma necessidade”.
PS: Se quiser dar uma força pro rap carioca, vale uma olhada no projeto Nós Somos a Crise, campanha para a gravação do segundo álbum do rapper, compositor e produtor musical Xará. Nascido e criado no subúrbio do Rio, ele integrou os coletivos Quinto Andar e Subsolo e é conhecido pelo estilo de composição e letras contundentes.