Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

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Inovação e planejamento: a história do maior projeto de financiamento coletivo no Brasil

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Tal qual Arquimedes, o momento Eureca do maior projeto da história do financiamento coletivo no Brasil veio num banho. Em 2005, o paraense estudante de pós-graduação em arquitetura do Instituto Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte, Márcio Sequeira tinha dificuldades de entender o comportamento das estruturas, porque o assunto era ensinado apenas de forma teórica e abstrata. Era preciso criar algo que pudesse ajudar a construção desse conhecimento necessário para todo engenheiro e arquiteto de forma mais prática e lúdica.

O primeiro desafio foi encontrar um material que ao mesmo tempo fosse maleável o suficiente para demonstrar visualmente o resultado das aplicações de forças nas estruturas e resistente o suficiente para erguê-las. Enquanto pensava, Márcio precisou trocar a resistência do chuveiro elétrico e Bingo! Ele usaria uma mola não só como peça principal da sua criação, mas também como identidade do projeto. Junto com imãs, bases e conectores formaria o Kit Estrutural Mola.

Quase dez anos depois, o Mola se tornou o maior projeto de financiamento coletivo do país e o primeiro a passar a barreira do meio milhão de reais. A campanha de Márcio no Catarse arrecadou R$ 604.114 com a colaboração de mais 1.584 pessoas de todos os estados do Brasil e de diversos países do mundo. O valor é mais que o dobro do recorde anterior de R$ 260 mil estabelecido há três meses pela banda Dead Fish. Mais que um marco do crowdfunding nacional, o Mola abre uma larga avenida para empreendedores brasileiros usarem o financiamento coletivo para lançarem seus produtos e testar a demanda do mercado com riscos muito reduzidos.

Dez anos de desenvolvimento e dois de planejamento

O sucesso do projeto não é composto apenas por um produto inovador, mas resultado de um longo processo de desenvolvimento e planejamento. Desde a sua criação, em 2005, foram feitos diversos protótipos do Mola sempre em busca de se aproximar cada vez mais do comportamento de uma estrutura real.

Márcio fez do projeto o tema da sua tese de mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto (MG). Foram realizados mais de 40 ensaios, testando elementos isolados, estruturas planas e espaciais e o modelo se mostrou muito preciso ao simular o comportamento de uma estrutura real.

Objetivo alcançado. Márcio havia criado um produto inédito capaz de tornar tangível e mais fácil o estudo do comportamento de estruturas arquitetônicas. Era a hora de produzir o Mola em escala comercial e levá-lo para escolas, alunos e professores.

aplicação de força no mola

O arquiteto começou a procurar investidores e empresas que quisessem financiar o projeto. Mesmo com o interesse manifesto de várias pessoas e um potencial enorme, ninguém se dispôs a colocar a grana no produto. Márcio partiu em busca de leis de incentivo que facilitassem a obtenção de um financiamento, mas se deparou com a falta de oportunidades para projetos de educação. Com o Mola debaixo do braço, percorreu a via-crúcis dos editais, mas nada apareceu. Ele sabia que tinha um bom produto e queria ir além. Era o projeto da sua vida. Para dar o próximo passo, porém, não tinha recursos necessários. Era um investimento alto.

O projeto ficou na gaveta durante anos enquanto Márcio trabalhava como arquiteto. Até que um dia em 2012, um amigo falou sobre o financiamento coletivo. Ele começou a pesquisar sobre o assunto e de cara achou que poderia ser uma alternativa interessante porque, além de conseguir viabilizar o projeto, conseguiria testar o mercado, a aceitação do produto e os valores. Acreditou na ideia e decidiu pesquisar o modelo a fundo.

Mapeamento e construção de rede

Com dificuldades de encontrar outros projetos de produto semelhantes no Brasil, foi atrás de campanhas em plataformas estrangeiras. Enquanto estudava o financiamento coletivo, iniciou um longo processo de mapeamento e construção de rede. Marcava conversas com professores em universidades, apresentava o Mola para os alunos, ouvia feedbacks para desenvolver o produto e registrava os e-mails dos interessados. Entrava em sites de faculdades de arquitetura e engenharia do mundo inteiro e coletava e-mails dos professores.

Foram dois anos entre a decisão de fazer um financiamento coletivo no Catarse e a entrada do projeto no ar. Nesse período, Márcio construiu um banco de dados com mais de 10 mil contatos. Um ano antes do projeto entrar no ar, avisou a todos sobre a campanha. Duas semanas antes, ligou para conversar com cada um dos 60 mais influentes da rede e enviou e-mails para os restantes.

Com a ajuda de alguns amigos, Márcio definiu a narrativa, as recompensas da campanha e desenhou as imagens de ilustração do produto na página de descrição do projeto. Contratou uma videomaker para fazer um novo vídeo e combinou de pagar uma parte antes da campanha e outra  caso obtivessem sucesso na empreitada.

O arquiteto Márcio Sequeira com a equipe do Catarse no festival CoCidade em São Paulo

O arquiteto Márcio Sequeira com a equipe do Catarse no festival CoCidade em São Paulo

Mais de R$200 mil em 10 dias

Quando a campanha do Mola foi ao ar no Catarse no dia 1 de setembro de 2014, a década do surgimento da ideia, os quatro anos desenvolvendo o produto e os dois de planejamento da arrecadação rapidamente mostraram sua força. Em três dias, o projeto bateu a meta de R$ 50 mil. Em dez, arrecadou mais de R$ 220 mil. O trabalho duro, no entanto, não parou. O arquiteto rodou diversas cidades do país para participar de eventos, dar palestras e apresentar o Mola em escolas e universidades.

Antes de pensar em fazer o financiamento coletivo, a ideia de Márcio era fazer algo bem maior. Quando começou a pesquisar sobre o modelo, percebeu que os valores não eram muito altos. Por causa da regra do tudo ou nada, teve medo de arriscar muito e decidiu fazer um projeto de R$ 50 mil para lançar uma tiragem piloto. Ele acreditava que com o produto pronto talvez fosse mais fácil conseguir um investidor para dar escala ao projeto. Não precisou. O que precisou foi abrir uma empresa, já que tinha lançado a campanha como pessoa física, e se despedir dos outros trabalhos como arquiteto para se dedicar exclusivamente ao projeto da sua vida.

“Eu nunca imaginei isso. Quando eu fiz o projeto, não achei que fosse passar tanto dos R$ 50 mil. Foi surpreendente. Já era muito comparado com os outros projetos que estavam no Catarse”, disse em entrevista à Flavia Amorim, da consultoria Incrowd.