Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

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Os vários financiamentos coletivos e a diferença do Catarse e o pagamento das multas do mensalão

Recentemente, após o Ministério Público começar a apurar as doações para o pagamento das multas dos acusados do mensalão, fomos procurados pela grande imprensa para emitir opiniões sobre os casos. Por meio da mobilização via internet, José Genoíno e Delúbio Soares arrecadaram cerca de R$ 1,7 milhão com a contribuição de 3.700 pessoas através de depósito bancário. Antes de responder aos veículos de comunicação, decidimos expor a vocês, comunidade que orbita, utiliza e interage com o Catarse, o que pensamos, e como enxergamos diferenças fundamentais entre o que fazemos e o que está sendo feito nesses casos.

Para uma comparação como essa teríamos de aprofundar muito mais o conhecimento geral sobre o modelo do financiamento coletivo. Teríamos de ir além das semânticas ou significados do termo, e reconhecer que o mecanismo se manifesta sob diversas facetas e modos de utilização, e cujo modelo propagado por nós e por sites como Kickstarter (EUA), ainda engatinha no Brasil. Tal aprofundamento nem sequer caberia em um post, mas elencamos alguns destaques.

O primeiro e mais importante ponto é que não é nosso papel avaliar a iniciativa do ponto de vista legal, ou ideológico. Existem instituições e fóruns para isso. Acreditamos em mobilizações como força de mudança e que elas acontecem de maneiras diferentes e utilizando premissas distintas. Como plataforma de financiamento coletivo, podemos destacar pontos importantes para diferenciarmos técnica e conceitualmente a nossa prática da utilizada pelos políticos em questão.

  • Existem uma série de aplicações e escalas ao conceito de reunir dinheiro coletivamente. Criança Esperança é um deles, Teleton outro. Churrasquinhos de fim de semana nos quais os participantes compartilham os custos também seguem premissas parecidas, mas em escalas menores. O que essas dinâmicas fazem é utilizar mecanismos de alcance, massivos ou não, sejam eles a TV, séries de ligações, contato pessoal ou a internet, como no caso dos políticos do PT, para atingir uma massa crítica de pessoas capazes de arrecadar juntas um valor financeiro que resolva determinada situação proposta àquele conjunto. Até mesmo o dízimo das igrejas e os impostos de uma nação se baseiam na premissa de unir um volume de pessoas contribuindo com quantias menores em prol de uma arrecadação de recursos financeiros mais massiva. Ou seja, o princípio é similar, mas as aplicações, resultados, meios utilizados e motivações podem ser extremamente diferentes.

  • O Catarse tem suas regras específicas de funcionamento. Essas regras visam a promover atitudes de transparência, minimizar riscos e inseguranças e expor de forma clara aos interessados que tipo de movimentação financeira ocorre na plataforma. Para poder captar através do Catarse, é preciso que o realizador proponha um projeto criativo com início, meio e fim bem definidos. Ele estabelece a meta financeira que precisa alcançar e em quanto tempo, de 1 a 60 dias. Essas informações e o números de apoiadores são públicas e estão disponíveis na página da campanha. Se alcançar a meta, o dinheiro é liberado e o projeto acontece. Caso contrário, o dinheiro volta para os apoiadores. Tudo isso é feito com o maior grau possível de transparência, com repasse de recursos operados por uma empresa habilitada legalmente para tal (o Catarse, cuja razão social é Grupo Comum Intermediação de Negócios) e por soluções de pagamento reconhecidas. A ideia é justamente promover um ambiente de clareza e transparência, para que uma importante energia que se chama confiança seja nutrida no Catarse e transborde para realizadores e apoiadores da plataforma. (Atualização em Junho 2016: nós temos dois modelos de financiamento coletivo agora, e algumas regras citadas nesse tópico já mudaram. Saiba mais aqui.)

  • Como queremos fomentar confiança, uma de nossas grandes preocupações é a transparência de dados. Estamos trabalhando, assim como diversas outras plataformas que operam de forma similar à nossa, para cada vez mais tornar o financiamento coletivo um modelo que prega políticas de aberturas de dados. Publicamos no final do ano passado dois posts aqui no blog abrindo as contas do Catarse e esclarecendo como nosso trabalho entrega valor para a comunidade. Em 2014, vamos abrir ainda mais as informações sobre tudo que acontece na plataforma. Acreditamos que o benefício de ser transparente se aplica não só às plataformas de crowdfunding, mas às empresas, governos e entidades interessadas em dar maior visibilidade ao emprego de recursos que nelas circulam.

  • No Catarse você direciona seu dinheiro para projetos hospedados na plataforma que passaram por filtros do nosso atendimento e que foram orientados a partir de boas práticas que aconselhamos. (Atualização Junho 2016. Nós eliminamos o processo de análise. Agora qualquer um pode publicar um projeto, desde que siga algumas regras básicas. Saiba mais aqui.)Você tem acesso ao realizador do projeto, e promovemos o estabelecimento de uma relação entre apoiadores e realizadores que visa a fomentar redes, aproximar pessoas e fundamentar uma interação na qual o respeito e a clareza quanto ao uso do dinheiro estejam explícitas da forma mais aberta possível. Isso se reflete até mesmo nas opiniões que coletamos na recente pesquisa Retrato do Financiamento Coletivo Brasil, na qual os dados abaixo demonstram o quanto transparência é importante:

O que podemos entender, portanto, é que o crowdfunding é uma dinâmica tão antiga quanto o próprio dinheiro e que ganhou tração e escala recentemente com os recursos e ferramentas que o ambiente da internet fornece. Ela tem suas variantes, testes, sucessos e fracassos. Como qualquer ferramenta, seu uso depende do operador. O financiamento coletivo pode se manifestar em plataformas que vão desde o apoio a projetos médicos até a ajuda para implantes de silicone.

Ao nossos olhos, o financiamento coletivo deveria ser, ao menos nesse estágio inicial, uma potência a ser testada, preferencialmente pela sociedade civil, e com processos de diálogo e construção. Assim, descobriremos seus limites e horizontes. Achamos que o caso Genoíno-Delúbio é parte desses testes empreendidos pela sociedade, e tiraremos aprendizado da situação, o que é o mais importante.

Em três anos movimentamos R$ 13,5 milhões que viabilizaram 900 projetos criativos em todo o país. Observamos diversas novas narrativas, pessoas e propostas surgirem no cenário científico, cultural, empreendedor e esportivo. Vamos continuar firmes nosso trabalho de levar a possibilidade do financiamento coletivo para cada vez mais pessoas e movimentar inúmeras redes produtivas e criativas no Brasil.

Sobre quantias arrecadadas, sonhamos com o dia em que um projeto alcançará R$ 1 milhão, de forma transparente e acessível. Não para multas ou outros fins burocráticos, mas para iniciativas concretas cujos potenciais de impacto positivo sejam claramente identificáveis, coletivos, e que transformem para sempre a nossa percepção sobre o que somos, juntos, capazes de fazer.

  • http://www.alsimoes.net André Simões

    Eu me lembro de uma pessoa que criou uma página e vendia quadradinhos nessa página para anunciantes. Cada quadradinho custava $1 no final ele arrecadou $1.000.000 sem nenhum prestar nenhum serviço específico. Lembro também de um designer que queria um Macbook e fez o mesmo que esse cara do quadradinhos.

    • http://catarse.me/ Rodrigo Maia

      Olá André! Obrigado pelo comentário!
      A página dos pixels vendidos é a http://www.milliondollarhomepage.com/

      Essa história do designer não conheço ou me lembro. Como dissemos no texto… a premissa do crowdfunding é simples e existe desde que o mundo e mundo. A Estátua da Liberdade e até mesmo o Cristo Redentor promoveram financiamentos coletivos “analógicos” para sua viabilização. Ou seja, as possibilidades são muitas e seria leviano dizer que tudo é a mesma coisa. :D
      Abs!
      Rodrigo
      Remixador de Informações @ Catarse

      • http://www.alsimoes.net André Simões

        O designer iria mandar fazer adesivos com os logos de quem suportasse a compra do novo notebook. Lembrei de outra onde a pessoa queria trocar de carro. Concordo com você, todos estes exemplos são formas de financiamento coletivo mas não podem nem deveriam ser confundidas. Penso que o deixa a pessoas inconformadas com estes casos notórios é que a condenação destes políticos foi comemorada por muitos e as pessoas não se não contavam com a ação dos correligionários deles. Então ficam tentando entender os mecanismos disso, mas no final é tudo muito mais simples.
        É muito parecido com quando um operador de caixa de banco digita um pagamento errado e gera uma diferença na contabilidade do caixa. O erro foi do operador e ele vai pagar essa diferença do bolso dele, quando os valores são muito altos, geralmente eles fazem uma rifa de alguma coisa para arrecadar a importância. Tá aí! Rifas são outra forma de financiamento coletivo e talvez a mais popular delas, mas não são lembradas como o nome financiamento coletivo que hoje em dia está mais associado com o que entendemos como crowdfunding.