Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

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Financiei meu doutorado com um crowdfunding. Esse modelo pode mudar o mundo

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O mexilhão dourado (Marcela Uliano)

Marcela Uliano escreve sobre sua experiência no uso de crowdfunding para arrecadar fundos para uma pesquisa de doutorado. Seu projeto, Genoma do Mexilhão Dourado, foi financiado no Catarse em 2013. Texto publicado originalmente no Medium do TED.

Há cerca de dois anos, um amigo me falou do Catarse, uma nova plataforma de financiamento coletivo que permite que pessoas arrecadem dinheiro para projetos criativos. Coincidentemente, naquela mesma semana, meu orientador prof. Mauro Rabelo, que tem uma extensa experiência com divulgação científica, me disse que estudava a possibilidade de usarmos o crowdfunding como meio para financiar nossa pesquisa, meu projeto de doutorado – o estudo da genética de um bivalve conhecido como Mexilhão Dourado (Limnoperna fortunei). Financiamento coletivo em uma pesquisa de doutorado? Parecia uma ideia bizarra, mas pensei: por que não?

O Mexilhão Dourado veio da Ásia para a América do Sul na água de lastro de navios há 20 anos. Hoje, essa espécie invasora está espalhada em uma área de mais de 190 mil quilômetros, do sul do continente, em Buenos Aires, à região central, no Pantanal.

O mexilhão é classificado pelos ecólogos como um “engenheiro de ecossistemas”. Isso porque ele altera os ambientes que invade, e nem sempre para melhor! Na América do Sul, a espécie se reproduz a taxas tão altas a ponto de entupir e deteriorar encanamentos industriais, gerando prejuízos anuais de milhões de dólares às indústrias de tratamento de água e usinas hidrelétricas. Além disso, o mexilhão dourado ameaçada a biodiversidade nativa sul americana: ele ocupa o nicho ecológico de outros bivalves, e homogeneíza os ecossistemas de rios e lagos devido à sua presença agressiva em grandes populações nos locais invadidos.

O que podemos fazer para evitar essa catástrofe ambiental?

Nossa solução: sequenciar o genoma do Mexilhão Dourado na busca pelo gene (ou genes) que possibilitará a eliminação da espécie dos locais invadidos a partir do uso de ferramentas de terapia gênica. E por que isso é tão importante? Se essa espécie chegar à bacia do rio Amazonas – de onde se encontra distante apenas algumas centenas de quilômetros-, vai invadir um dos biomas mais biodiversos do planeta. Preservar a biodiversidade da floresta e das águas amazônicas deve ser prioridade de toda a humanidade: não podemos deixar isso acontecer.

Marcell Uliano no Ted (Ryan Lash)

Marcela Uliano no TED (Ryan Lash)

Hoje, ao contar a história em retrospectiva, consigo explicar de forma clara e concisa a importância coletiva do projeto. Mas a verdade é que, no princípio, relacionar o tema genômica com a questão ambiental não foi tarefa trivial. Mesmo sabendo que a maior parte das pessoas está preocupada com a preservação da biodiversidade; como explicar de forma simples e direta a minha tese de doutorado, a ponto de não só educar a crowd para o problema, mas também conseguir que ela me financiasse?

Nossa solução: criamos um vídeo animado que se tornou um sucesso na internet!. Em 5 minutos, a animação explicava a  problemática do Mexilhão Dourado na América do Sul e a necessidade de se conhecer melhor  a genética dessa espécie para podermos combatê-la. Contamos a história de uma maneira curta, simples, engraçada e carismática.

O mexilhão que só come, dorme, namora e… deixa um rastro de destruição por onde passa! from Laboratório BIOMA on Vimeo.

Uma animação! A ideia parece simples, mas isso está longe da realidade. Depois que o professor Mauro escreveu a primeira versão do roteiro do vídeo, trabalhamos muito e muito na edição da informação até que ele chegasse a 5 minutos. Para mim, que trabalho nos mínimos detalhes do sequenciamento do genoma dessa espécie, foi um grande desafio manter o vídeo curto e de fácil compreensão, pois tive que deixar de lado muitos detalhes científicos. No final, aprendi a diferenciar os públicos: a questão é que um cientista precisa de todas as informações técnicas disponíveis para que ele possa analisar e julgar um trabalho de pesquisa. No entanto, todos esses mesmo detalhes só iriam confundir o entendimento da crowd sobre o projeto. Nesse caso, era preciso deixar os detalhes de lado.

Aprendi muito nesse processo. E o melhor, acho que também ensinei. Hoje penso que minha função não é apenas realizar o rebuscado trabalho científico, mas também instigar a paixão pela ciência nas pessoas. E a melhor maneira de fazer isso é apresentando as informações de forma simples, concisa e interessante. A partir daí, se as pessoas se interessarem pelo tema, elas vão querer saber mais, e então vão atrás dos detalhes. Depois de nosso vídeo viralizar, centenas de pessoas nos escreveram com perguntas, e milhares compartilharam o link do nosso projeto de crowdfunding. O trabalho deu resultado: ao final da campanha, 361 pessoas contribuíram com R$ 40,7 mil para nossa pesquisa.

rogeriodasilva

Marcela em ação (Rogério da Silva)

Uma outra razão para o sucesso do nosso financiamento coletivo foi as recompensas que oferecemos – em especial, o uso do nome de colaboradores nos genes descritos no estudo do genoma (por exemplo: Marcelina ribonuclease). Como já escreveu o astrofísico Neil deGrasse Tyson certa vez, “A possibilidade de ter algo batizado com seu nome é uma grande motivação; se um astrônomo amador descobre um cometa brilhante, o mundo será obrigado a utilizar seu nome. Um exemplo famoso disso é o Cometa Halley, que dispensa apresentações”.

Uma questão importante para reflexão: há milhares de bons projetos científicos sem financiamento espalhados pelo mundo. Se o crowdfunding funcionou pra gente, talvez funcione para outros pesquisadores.

Essa é uma ideia radical. Vivemos atualmente em uma sociedade altamente especializada; nem mesmo os cientistas, se trabalharem em ramos ligeiramente diferentes, vão conseguir dialogar com facilidade sobre suas áreas de atuação. Nesse contexto, como podemos esperar que o cidadão comum compreenda todos os tópicos científicos estudados e os valorize sem reservas? É preciso explicar para eles o que estamos fazendo. Se mais pesquisadores usassem esse modelo e instigassem o interesse público pelos temas científicos, mais pesquisas seriam financiadas e desenvolvidas com maior rapidez, e o público se envolveria com a ciência de uma maneira que nunca fez antes: sendo agente ativo do processo, financiando, e aprendendo muito ao longo do caminho.

Se houve uma coisa que aprendi em todo esse processo, é que todos querem participar da ciência. Isso é algo muito bom, e é crucial que as pessoas tenham essa oportunidade. Atualmente, somos mais de 8 bilhões de seres humanos consumindo os recursos e destruindo a biodiversidade em uma escala nunca antes vista no planeta Terra. A verdade é que as decisões que tomarmos nas próximas décadas, individualmente e como um grupo, vão definir o destino do nosso planeta e da humanidade. Nesse cenário alarmante, é preciso que o máximo possível de pessoas esteja informada sobre os produtos da ciência, seus impactos e consequências, para que possamos tomar decisões embasadas e conscientes – o que consumir, como votar e, sim, até qual pesquisa financiar! O conhecimento precisa viralizar, o trabalho precisa ser coletivo: juntos somos mais fortes!