Quem compra livros no Brasil? Destaques da pesquisa Panorama do Consumo de Livros

O mercado editorial começou 2026 com um sinal que merece atenção (e, dessa vez, também um pouco de otimismo): em 2025, o Brasil ganhou cerca de 3 milhões de novos consumidores de livros. Segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro com realização da Nielsen BookData, 18% da população brasileira com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos 12 meses.

O objetivo do estudo é justamente esse: entender quem compra, como compra, por que compra (ou não compra) e transformar esse retrato em ferramenta prática para editoras, livrarias e demais agentes da cadeia do livro tomarem decisões melhores. E, como toda boa pesquisa, ela traz dados que surpreendem e outros que confirmam tendências que a gente já vinha sentindo na pele.

Confira 5 destaques da pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil! ⤵️

1) As mulheres sustentam o consumo de livros no Brasil

A pesquisa reforça uma verdade que o mercado já conhece, mas às vezes ainda trata como “recorte”: mulheres são a maioria esmagadora entre quem compra livros no Brasil.

  • 61% dos consumidores de livros são mulheres (homens: 39%).
  • E tem um dado ainda mais específico e muito relevante: mulheres pretas e pardas representam 30% do total de consumidores de livros no Brasil.
  • Além disso, mulheres pretas e pardas da classe C somam 15% do total de consumidores e formam o maior grupo consumidor do país.

Esses números são interessantes por dois motivos! Primeiro, porque orientam estratégia: comunicação, canais, catálogo, precificação, escolhas de tema e linguagem. Segundo, porque escancaram uma contradição histórica: mesmo com pessoas pretas e pardas representando 49% dos consumidores (contra 45% de consumidores brancos), o mercado editorial ainda tem um abismo de representatividade em catálogo, em autores publicados, e também nas equipes e posições de decisão.

Se tem um “insight estratégico” aqui, ele vem com um desafio junto: a demanda já existe. O consumo já existe. O mercado é que ainda precisa correr atrás para refletir a realidade.

2) O Brasil comprou mais livros em 2025 e “livros de colorir” tiveram um peso enorme nisso

O dado macro é animador: mais gente comprou livro em 2025 do que em 2024. Mas vale entender de onde veio parte desse crescimento.

A pesquisa mostra que:

  • 7,1% da população brasileira comprou ao menos um livro de colorir em 2025.
  • Isso equivale a cerca de 11 milhões de pessoas.
  • E representa 40% dos consumidores de livros (ou seja, quase metade de quem comprou livro no ano comprou ao menos um de colorir).

Podemos olhar esse fenômeno de duas formas:

  • Os livros de colorir funcionam porta de entrada: um produto que puxa pessoas para a livraria onde poderão ter contato com outros livros, para o e-commerce onde o mesmo pode acontecer, para o ato de comprar um livro em geral.
  • Ou pode servir como alerta para o mercado: um tipo de compra muito movida por tendência, impulsividade e exposição e que pode não se converter automaticamente em hábito de leitura de longo prazo. Entretanto, se o consumidor já se colocou como pré-disposto a comprar produtos literários, frequentar a livraria ou acessar sites de venda de livros, pode ser um potencial público para buscar.

A oportunidade aqui é clara: como transformar um boom de compra (motivada por modinha, presente, autocuidado, hype de redes) em recorrência? Como acompanhar essa pessoa depois? Como sugerir o próximo livro, o próximo tema, o próximo formato de consumo?

3) A compra é majoritariamente física — mas a jornada é cada vez mais híbrida (e social)

Em formatos, as preferências de consumidores de livros em 2025 mostram um equilíbrio interessante:

  • 56% comprou apenas livros físicos;
  • 28% comprou impresso e digital;
  • 16% comprou apenas digital.

Ou seja: o impresso segue dominante, mas uma fatia relevante já transita entre formatos. Isso tem implicação direta em estratégia de lançamento, campanhas, distribuição e até em como a gente pensa “descoberta” e “conversão” (porque o caminho entre conhecer um livro e comprá-lo já não passa só pelo mesmo lugar).

E aqui entra um dado que, para mim, é um dos mais importantes da pesquisa: a descoberta é cada vez mais mediada por canais digitais e sociais.

  • 70% dos consumidores gostam de se informar sobre lançamentos.
  • Principais canais para ficar sabendo das novidades:
    • sites/apps de compra (34%),
    • pessoas próximas (30%),
    • livrarias (24%),
    • criadores de conteúdo (22%).
  • 56% dos consumidores compram livros através das redes sociais.

Esse “através das redes” não significa só clicar e comprar. Significa que a rede social virou vitrine, recomendação, conversa, gatilho de impulso, prova social, e também um lugar onde o livro disputa atenção com todo o resto.

E ainda existe outro recorte forte dentro dessa perspectiva:

  • mulheres de 25 a 54 anos representam 76% das consumidoras que compram por essas plataformas;
  • elas somam 26% do total de consumidores de livros que compram via redes.

4) Livraria continua sendo desejo, não só como ponto de venda, mas como experiência

Mesmo com o avanço do digital, a pesquisa mostra que as livrarias ainda ocupam um lugar afetivo e simbólico muito forte para quem compra livros.

Para a maioria dos consumidores, a livraria é:

  • um espaço para relaxar e explorar sem pressa (53%);
  • um lugar para se conectar com cultura e conhecimento (46%);
  • um passeio para descobrir novidades (39%).

Esse tipo de dado é valioso porque lembra que livraria não compete apenas com o preço do online. Ela compete com a agenda de lazer das pessoas e talvez seja exatamente assim que elas podem bater de frente com outros grandes players do mercado. Livrarias que oferecem uma sensação de pertencimento, identidade e que entendem que a compra pode ser consequência de uma experiência boa têm um grande espaço (e público) para explorar.

Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta gargalos de acesso:

  • 79% dos consumidores que sentem falta de uma livraria no bairro onde vivem são das classes B e C.

Ou seja, existe desejo, existe valor percebido, mas ainda existe um desafio estrutural de presença e proximidade.

5) O maior concorrente do livro segue sendo o tempo (e como a gente escolhe gastá-lo)

A pesquisa reforça um padrão que aparece com frequência: entre quem não comprou livros, “preço” pode até aparecer como desmotivador declarado mas, quando a pergunta é sobre o motivo real de não ter comprado nos últimos 12 meses, a resposta mais comum é a falta de tempo para leitura.

E tem uma camada importante aqui: não comprar não significa não ler. A própria pesquisa sugere isso ao trazer respostas do tipo “baixei livros gratuitos”, “tive acesso a PDF”, “ganhei livros de presente”. Então o problema não é apenas consumo financeiro, é rotina, priorização e hábito.

Isso se conecta com outro dado bem revelador sobre lazer de quem compra livro: as atividades mais frequentes incluem assistir streaming e usar redes sociais, e a leitura aparece depois. Ou seja, mesmo entre consumidores, o livro disputa espaço com hábitos que costumam demandar um tempo considerável da rotina.

A pergunta que fica para o mercado não é só “como baratear” (mesmo quando essa é uma frente necessária), mas também:

  • como facilitar o encaixe da leitura na rotina?
  • como criar experiências de leitura que convivam com o ritmo de vida?
  • como estimular continuidade (e não só a compra pontual)?

Divulgar e discutir os resultados da pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil é colocar o mercado diante de um espelho, com tudo o que ele mostra de oportunidade e de contradição e talvez apresentar caminhos que podemos percorrer para fortalecer o mercado consumidor de livros no país.

Os números de 2025 apontam crescimento real de consumidores, uma força enorme das mulheres, um peso inegável das redes sociais na jornada de compra e um valor persistente das livrarias como espaço de cultura e descanso.

Se a gente quer um mercado editorial mais forte, entender quem compra (e por quê) é condição básica. A boa notícia é que existe demanda, existe interesse por lançamentos, existe movimento. O desafio e as oportunidades estão em transformar interesse em hábito, compra em comunidade e tendência em base sustentável para todos da cadeia produtiva do livro.

Novo Catarse e perspectivas para o mercado editorial

E é exatamente nesse contexto que o Novo Catarse se torna ainda mais relevante: se a leitura disputa tempo, atenção e descoberta com um ecossistema cada vez mais social e acelerado, criadores e editoras precisam de um lugar onde a relação com o público não dependa de algoritmo: dependa de comunidade.

Como plataforma de financiamento coletivo que preza pelo trabalho criativo, o Catarse existe para transformar interesse em apoio real e apoio em viabilidade: do livro que sai do arquivo e vira impressão, ao quadrinho que ganha acabamento melhor, à editora que consegue planejar catálogo, ao criador de conteúdo literário que sustenta a produção com recorrência.

No Novo Catarse, queremos ser ponto de encontro dessa criatividade e um espaço para contar histórias, reunir gente em torno delas e fazer com que projetos de autores, editoras e vozes do universo literário não só aconteçam, mas cresçam com autonomia, dignidade e fôlego de longo prazo.

Laura Brand
Editora, coordenadora editorial, jornalista, comunicadora e criadora de conteúdo. Especializou-se no mercado editorial e no trabalho com os livros por instituições como PUC Minas e Columbia Journalism School.

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Quem compra livros no Brasil? Destaques da pesquisa Panorama do Consumo de Livros

O mercado editorial começou 2026 com um sinal que merece atenção (e, dessa vez, também um pouco de otimismo): em 2025, o Brasil ganhou cerca de 3 milhões de novos consumidores de livros. Segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro com realização da Nielsen BookData, 18% da população brasileira com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos últimos 12 meses.

O objetivo do estudo é justamente esse: entender quem compra, como compra, por que compra (ou não compra) e transformar esse retrato em ferramenta prática para editoras, livrarias e demais agentes da cadeia do livro tomarem decisões melhores. E, como toda boa pesquisa, ela traz dados que surpreendem e outros que confirmam tendências que a gente já vinha sentindo na pele.

Confira 5 destaques da pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil! ⤵️

1) As mulheres sustentam o consumo de livros no Brasil

A pesquisa reforça uma verdade que o mercado já conhece, mas às vezes ainda trata como “recorte”: mulheres são a maioria esmagadora entre quem compra livros no Brasil.

  • 61% dos consumidores de livros são mulheres (homens: 39%).
  • E tem um dado ainda mais específico e muito relevante: mulheres pretas e pardas representam 30% do total de consumidores de livros no Brasil.
  • Além disso, mulheres pretas e pardas da classe C somam 15% do total de consumidores e formam o maior grupo consumidor do país.

Esses números são interessantes por dois motivos! Primeiro, porque orientam estratégia: comunicação, canais, catálogo, precificação, escolhas de tema e linguagem. Segundo, porque escancaram uma contradição histórica: mesmo com pessoas pretas e pardas representando 49% dos consumidores (contra 45% de consumidores brancos), o mercado editorial ainda tem um abismo de representatividade em catálogo, em autores publicados, e também nas equipes e posições de decisão.

Se tem um “insight estratégico” aqui, ele vem com um desafio junto: a demanda já existe. O consumo já existe. O mercado é que ainda precisa correr atrás para refletir a realidade.

2) O Brasil comprou mais livros em 2025 e “livros de colorir” tiveram um peso enorme nisso

O dado macro é animador: mais gente comprou livro em 2025 do que em 2024. Mas vale entender de onde veio parte desse crescimento.

A pesquisa mostra que:

  • 7,1% da população brasileira comprou ao menos um livro de colorir em 2025.
  • Isso equivale a cerca de 11 milhões de pessoas.
  • E representa 40% dos consumidores de livros (ou seja, quase metade de quem comprou livro no ano comprou ao menos um de colorir).

Podemos olhar esse fenômeno de duas formas:

  • Os livros de colorir funcionam porta de entrada: um produto que puxa pessoas para a livraria onde poderão ter contato com outros livros, para o e-commerce onde o mesmo pode acontecer, para o ato de comprar um livro em geral.
  • Ou pode servir como alerta para o mercado: um tipo de compra muito movida por tendência, impulsividade e exposição e que pode não se converter automaticamente em hábito de leitura de longo prazo. Entretanto, se o consumidor já se colocou como pré-disposto a comprar produtos literários, frequentar a livraria ou acessar sites de venda de livros, pode ser um potencial público para buscar.

A oportunidade aqui é clara: como transformar um boom de compra (motivada por modinha, presente, autocuidado, hype de redes) em recorrência? Como acompanhar essa pessoa depois? Como sugerir o próximo livro, o próximo tema, o próximo formato de consumo?

3) A compra é majoritariamente física — mas a jornada é cada vez mais híbrida (e social)

Em formatos, as preferências de consumidores de livros em 2025 mostram um equilíbrio interessante:

  • 56% comprou apenas livros físicos;
  • 28% comprou impresso e digital;
  • 16% comprou apenas digital.

Ou seja: o impresso segue dominante, mas uma fatia relevante já transita entre formatos. Isso tem implicação direta em estratégia de lançamento, campanhas, distribuição e até em como a gente pensa “descoberta” e “conversão” (porque o caminho entre conhecer um livro e comprá-lo já não passa só pelo mesmo lugar).

E aqui entra um dado que, para mim, é um dos mais importantes da pesquisa: a descoberta é cada vez mais mediada por canais digitais e sociais.

  • 70% dos consumidores gostam de se informar sobre lançamentos.
  • Principais canais para ficar sabendo das novidades:
    • sites/apps de compra (34%),
    • pessoas próximas (30%),
    • livrarias (24%),
    • criadores de conteúdo (22%).
  • 56% dos consumidores compram livros através das redes sociais.

Esse “através das redes” não significa só clicar e comprar. Significa que a rede social virou vitrine, recomendação, conversa, gatilho de impulso, prova social, e também um lugar onde o livro disputa atenção com todo o resto.

E ainda existe outro recorte forte dentro dessa perspectiva:

  • mulheres de 25 a 54 anos representam 76% das consumidoras que compram por essas plataformas;
  • elas somam 26% do total de consumidores de livros que compram via redes.

4) Livraria continua sendo desejo, não só como ponto de venda, mas como experiência

Mesmo com o avanço do digital, a pesquisa mostra que as livrarias ainda ocupam um lugar afetivo e simbólico muito forte para quem compra livros.

Para a maioria dos consumidores, a livraria é:

  • um espaço para relaxar e explorar sem pressa (53%);
  • um lugar para se conectar com cultura e conhecimento (46%);
  • um passeio para descobrir novidades (39%).

Esse tipo de dado é valioso porque lembra que livraria não compete apenas com o preço do online. Ela compete com a agenda de lazer das pessoas e talvez seja exatamente assim que elas podem bater de frente com outros grandes players do mercado. Livrarias que oferecem uma sensação de pertencimento, identidade e que entendem que a compra pode ser consequência de uma experiência boa têm um grande espaço (e público) para explorar.

Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta gargalos de acesso:

  • 79% dos consumidores que sentem falta de uma livraria no bairro onde vivem são das classes B e C.

Ou seja, existe desejo, existe valor percebido, mas ainda existe um desafio estrutural de presença e proximidade.

5) O maior concorrente do livro segue sendo o tempo (e como a gente escolhe gastá-lo)

A pesquisa reforça um padrão que aparece com frequência: entre quem não comprou livros, “preço” pode até aparecer como desmotivador declarado mas, quando a pergunta é sobre o motivo real de não ter comprado nos últimos 12 meses, a resposta mais comum é a falta de tempo para leitura.

E tem uma camada importante aqui: não comprar não significa não ler. A própria pesquisa sugere isso ao trazer respostas do tipo “baixei livros gratuitos”, “tive acesso a PDF”, “ganhei livros de presente”. Então o problema não é apenas consumo financeiro, é rotina, priorização e hábito.

Isso se conecta com outro dado bem revelador sobre lazer de quem compra livro: as atividades mais frequentes incluem assistir streaming e usar redes sociais, e a leitura aparece depois. Ou seja, mesmo entre consumidores, o livro disputa espaço com hábitos que costumam demandar um tempo considerável da rotina.

A pergunta que fica para o mercado não é só “como baratear” (mesmo quando essa é uma frente necessária), mas também:

  • como facilitar o encaixe da leitura na rotina?
  • como criar experiências de leitura que convivam com o ritmo de vida?
  • como estimular continuidade (e não só a compra pontual)?

Divulgar e discutir os resultados da pesquisa Panorama do Consumo de Livros no Brasil é colocar o mercado diante de um espelho, com tudo o que ele mostra de oportunidade e de contradição e talvez apresentar caminhos que podemos percorrer para fortalecer o mercado consumidor de livros no país.

Os números de 2025 apontam crescimento real de consumidores, uma força enorme das mulheres, um peso inegável das redes sociais na jornada de compra e um valor persistente das livrarias como espaço de cultura e descanso.

Se a gente quer um mercado editorial mais forte, entender quem compra (e por quê) é condição básica. A boa notícia é que existe demanda, existe interesse por lançamentos, existe movimento. O desafio e as oportunidades estão em transformar interesse em hábito, compra em comunidade e tendência em base sustentável para todos da cadeia produtiva do livro.

Novo Catarse e perspectivas para o mercado editorial

E é exatamente nesse contexto que o Novo Catarse se torna ainda mais relevante: se a leitura disputa tempo, atenção e descoberta com um ecossistema cada vez mais social e acelerado, criadores e editoras precisam de um lugar onde a relação com o público não dependa de algoritmo: dependa de comunidade.

Como plataforma de financiamento coletivo que preza pelo trabalho criativo, o Catarse existe para transformar interesse em apoio real e apoio em viabilidade: do livro que sai do arquivo e vira impressão, ao quadrinho que ganha acabamento melhor, à editora que consegue planejar catálogo, ao criador de conteúdo literário que sustenta a produção com recorrência.

No Novo Catarse, queremos ser ponto de encontro dessa criatividade e um espaço para contar histórias, reunir gente em torno delas e fazer com que projetos de autores, editoras e vozes do universo literário não só aconteçam, mas cresçam com autonomia, dignidade e fôlego de longo prazo.

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