Financiamento coletivo no Brasil – Blog do Catarse

Dados / Dicas de Campanha / Geral

A marca de 1.000 projetos financiados e o aprendizado de quem não chegou lá

mil projetos bem-sucedidos

Depois de três anos e três meses no ar, o Catarse chegou hoje à marca de 1.000 projetos financiados! Essas iniciativas que alcançaram a meta de financiamento dentro do prazo representam 56% de todas que passaram pela plataforma. Gostamos de tentar imaginar o impacto do financiamento coletivo nas diversas cadeias produtivas no país

Quase a metade dos projetos bem-sucedidos é de Música ou Cinema e Vídeo. Interessante notar as três categorias que completam as cinco primeiras. Teatro, Quadrinhos e Comunidade. Juntos os 1.000 projetos bem-sucedidos arrecadaram R$ 13,78 milhões, divididos assim entre as categorias:

O principal aqui é perceber que dos R$ 15,7 milhões que entraram na plataforma R$ 13,78 milhões foram para projetos bem-sucedidos, ou seja, 88% do dinheiro dos apoiadores foram para os projetos que alcançaram a meta de arrecadação. Os 44% dos projetos que não foram financiados receberam apenas 12% do total. Isso significa que a maioria dos projetos que não atingem o objetivo de financiamento  arrecadam muito pouco. São realizadores que cometeram o principal erro no financiamento coletivo: achar que é só colocar o projeto no ar e a grana vai aparecer.  Pelo contrário, o modelo é mais ágil e independente e menos burocrático do que qualquer outro, mas tão trabalhoso quanto qualquer um. Exige estudo da ferramenta, mapeamento de rede e público alvo, planejamento de campanha, execução da campanha, relacionamento com os apoiadores e realização do projeto. Dependendo do tamanho do projeto, é trabalho para uma, duas ou uma equipe inteira dedicada à campanha.

Interessante notar aqui também a ascensão da categoria Jogos. Isso acontece porque a média de arrecadação da categoria é disparada a maior da plataforma: R$ 36.247, muito acima de Design, a segunda colocada com R$ 26.577, e da média do Catarse de R$ 13.371.

Ao olharmos a divisão dos projetos financiados por Estados do Brasil, fica a clara a predominância das regiões Sudeste e Sul e do Distrito Federal. A Bahia é o principal Estado do Nordeste no Catarse com 13 projetos bem-sucedidos. Uma pergunta para a qual não temos uma boa resposta é por que o Nordeste, com uma forte economia criativa, ainda engatinha no uso do financiamento coletivo?

Os aprendizado dos 800 que não alcançaram a meta

Ao chegar a mais essa marca representativa, procuramos entender também o que o financiamento coletivo pode trazer além do dinheiro. O Caio Tendolini já falou aqui sobre como o crowdfunding é mais Crowd do que Funding e como o filme Belo Monte conseguiu muito mais do que R$ 140 mil. Mas o ponto aqui era entender que tipo de aprendizado uma campanha que não alcança a meta pode trazer.

Olhei os quase 800 projetos que não chegaram ao objetivo de arrecadação e redescobri muitas ideias geniais. Projetos como Wall.k, um audioguia da arte de rua de São Paulo ou o Inside Out Rap Comunidade. Ou os filmes Aqualoucos e Heberson eu Sinto Muito. Iniciativas como o Coworking de Santos, o Recorde do Abraço e A Experiência Popozuda.

Uma delas é a Revista Polytek,  uma publicação com novidades mundiais de tecnologia e ciência distribuída gratuitamente nas universidades e que queria expandir sua abrangência para outras instituições. Fiz cinco perguntas para o André Sionek, diretor executivo da revista, para tentar entender o que eles descobriram com a campanha. Mesmo sem atingir a meta, ele conseguiu um patrocinador para o projeto, descobriu que o financiamento coletivo serviu para validar a ideia e que o importante é envolver os apoiadores na história do seu projeto.

1- Você aprendeu alguma coisa interessante com a sua campanha de financiamento coletivo?

Sim! Especificamente em relação à campanha: Aprendemos que as pessoas não querem saber do nosso produto, o que queremos fazer ou como vamos fazer. O mais importante para elas é se sentir conectadas à nossa história, ter vivenciado uma situação que a gente descreve ou concordar com o nosso ponto de vista, mas, principalmente, elas precisam se emocionar e acreditar no que estamos fazendo. Quando percebemos isso já era meio tarde na campanha, mas mesmo assim conseguimos quase duzentos apoiadores com essa nova tática.

2- Mesmo sem ter conseguido o dinheiro, a sua campanha lhe trouxe algo?

Sim! Conseguir 226 apoiadores e centenas de e-mails, comentários e mensagens nos provou que estamos no caminho certo com o projeto. A campanha do Catarse, mesmo não tendo atingido a meta financeira nos auxiliou a validar a nossa ideia.

3 – O projeto aconteceu ou vai acontecer mesmo sem o dinheiro do financiamento coletivo? Como você fez para levar a ideia adiante?

Sim! O projeto vai acontecer e continua acontecendo. A campanha no Catarse nos auxiliaria a ampliar a distribuição da Polyteck e nos daria uma folga financeira para trabalhar com mais tranquilidade. Após o Catarse tentamos um patrocínio via FINEP que também não deu certo, até que logo após o encerramento da campanha recebemos a ligação do Pedro, da Latino Australia Education dizendo que adorou o nosso projeto e queria nos ajudar. A Latino Australia está nos patrocinando agora. O dinheiro que recebemos deles ainda não é suficiente para fazer o mesmo que faríamos com a verba via Catarse, mas foi um começo. Agora estamos loucos atrás de outras empresas que queiram apoiar o nosso projeto.

4 – Por que a sua campanha não atingiu a meta?

Eu vejo que nossa campanha não atingiu a meta por alguns motivos: (em ordem de importância)

     a – Prazo muito curto.

     b – Meta muito otimista.

     c – Nosso público alvo (universitário) tem pouco dinheiro.

     d – Demoramos um pouco para entender o que realmente convenceria as pessoas a doar. (Resposta da pergunta 1)

     e – Problemas externos. Roubaram meu Macbook um dia após o lançamento da campanha. Toda a programação das duas primeiras semanas de campanha estavam armazenadas nele, e eu as perdi.

5 – Você faria uma nova campanha de financiamento coletivo? Se sim, o que faria de diferente?

Sim! Por enquanto não para o mesmo projeto… Eu faria diferente:

     a – Estudar melhor o meu público alvo e suas condições financeiras.

     b – Agora já sabemos o que motiva as pessoas a doar. Acredito que na próxima vamos demorar menos tempo para acertar.

     c – Estabeleceria metas e prazos mais baixos. Nossa opção pelo prazo menor foi para criar um senso de urgência e o valor foi com base em uma pesquisa que tínhamos feito 2 meses antes mostrando que mais de 700 alunos queriam receber a Polyteck nas suas universidades. Erramos no valor porque não consideramos o fato de que a doação média de universitários é consideravelmente menor do que a de outros públicos.