O dia 29 de janeiro é marcado pelo Dia da Visibilidade Trans, uma data que vai além do “ser visto” e entra no território do “ser ouvido”. Mais do que um reconhecimento simbólico, esse é um momento de reflexão, celebração e conscientização sobre a existência, a legitimidade e as múltiplas formas e camadas que atravessam as vidas e os corpos trans no Brasil.
É também em janeiro que marcas, influenciadores e o público em geral voltam seus olhares para o tema, que passa a ocupar com mais frequência os espaços da mídia e das redes sociais.
No entanto, quando essa atenção se limita a um único dia ou mês do calendário, a visibilidade corre o risco de se tornar pontual, superficial e facilmente descartável. Sendo assim, é necessário olhar para os lugares onde essas vozes ecoam o ano todo. Um desses espaços é a literatura.
Ler, divulgar e viabilizar a literatura produzida por pessoas trans não é apenas um gesto de apoio. É um ato político e cultural que amplia nossas noções de realidade, empatia e arte, ao mesmo tempo em que sustenta a continuidade dessas vozes para além das datas simbólicas.
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Literatura trans não é apenas para pessoas trans
De forma geral, o que as pessoas cisgêneras — pessoas que se identificam com o gênero designado a elas ao nascer — tendem a consumir são histórias de pessoas trans quase exclusivamente por meio do noticiário, quando essas existências aparecem associadas à violência, à estatística ou a relatos de dor. Mas a literatura de ficção e a produção intelectual propõem algo mais profundo.
Um estudo publicado em 2013 pela New School for Social Research, conduzido pelos psicólogos David Comer Kidd e Emanuele Casstano, comprovam que a leitura de ficção literária aumenta a capacidade do leitor de compreender o estado mental e as emoções alheias, desenvolvendo assim a empatia por aquilo que lhe é estranho.
Essa imersão no olhar alheio é uma tecnologia de humanização, a chance de desconstruir preconceitos através da arte. Além disso, também é uma oportunidade para crianças e jovens naturalizarem a diversidade. O sucesso de obras como Kadu, o Pinóquio e Minha Adolescência Trans no Catarse prova que narrativas que acolhem a autodescoberta são pontes essenciais para diálogos mais saudáveis dentro das famílias e da sociedade.
“Ler o outro, não apenas sobre o outro, mas através do olhar do outro, nos possibilita uma vivência além da nossa individualidade, dos nossos contextos”, como define Mayra Sigwalt em artigo sobre a expansão de horizontes por meio da leitura.

Espelhos para todas as idades
Para além da construção da empatia, em um mundo ainda marcado pela escassez de referências trans no cotidiano e na mídia, a literatura cumpre também o papel fundamental de apresentar possibilidades de existência a quem nunca teve acesso a elas.
É verdade que a internet ampliou esse alcance e facilitou o contato com diferentes vivências. Ainda assim, ao narrar múltiplas formas de ser trans e abordar a transgeneridade com a profundidade e as nuances necessárias, os livros operam em outra camada ao desconstruir noções pré-estabelecidas e abrirem janelas para que leitores possam se enxergar, se reconhecer e se compreender ao longo das páginas.
Para as crianças, obras que trazem a diversidade de gênero de forma lúdica ajudam a criar um ambiente onde conversas sobre identidade de gênero são naturalizadas, e não tratadas como tabus. Isso protege a criança trans do isolamento e ensina a criança cis que o respeito é a base de qualquer convivência.
Já para adolescentes e adultos, essas narrativas funcionam como mapas de autodescoberta. Independente da idade em que se inicia a transição ou o questionamento, encontrar-se em uma página escrita é um ato de validação. A literatura oferece o direito de imaginar um futuro pleno.
A produção e divulgação da literatura é papel de todes
Para que a literatura trans possa cumprir esses papéis, no entanto, é preciso que ela comece a ocupar espaços nos quais não costuma chegar, ou seja, se tornar parte da produção de conteúdo dos influenciadores digitais, se destacar entre os veículos de comunicação, especializados em literatura ou não, e da busca ativa dos leitores.
É necessário desmistificar a ideia de que obras de autoria trans trazem apenas "relatos de dor" ou "testemunhos biográficos". Embora muitos dos livros escritos por pessoas trans tragam esses vieses — com maestria, vale mencionar —, a literatura trans vai além e se manifesta na poesia, nos romances, nas fantasias, no suspense e nos demais gêneros literários. Mais do que isso, as pessoas cis deveriam enxergar essas obras como arte e produção intelectual.
Quando um influenciador analisa a técnica, a estética e o impacto político de um livro escrito por uma pessoa trans, ele ajuda a retirar essa obra do lugar de "curiosidade" e a posiciona como literatura essencial para a formação do pensamento crítico. Diversificar a própria curadoria daquilo que é apresentado no próprio perfil é o que garante que essas vozes tenham relevância cultural e social o ano todo.

Clubes de leitura possibilitam a difusão da literatura trans
Segundo matérias da O Globo e da Tribuna de Minas, os clubes de leitura têm ido na contramão da baixa de leitores no país e ganhado cada vez mais espaço e protagonismo no mercado editorial. Não apenas de forma presencial, mas através de clubes de assinatura e nas plataformas digitais também.
No Catarse, por exemplo, vemos o crescimento de clubes de leitura focados em autores dissidentes, como o Clube Enevoada, o Raízes do Horror e o Clube Cultivando Histórias, nos quais o público não quer apenas consumir o livro pronto, mas fazer parte do processo de viabilização e debate da obra.
Nesse cenário, o Notas Transversas — clube da autora e produtora de conteúdo Gabriele Santuzzo — destaca-se por ir além da curadoria. Ao focar em obras produzidas e protagonizadas por pessoas trans, o projeto reverte uma porcentagem dos apoios para casas de acolhimento para pessoas trans em situação de vulnerabilidade, aliando literatura ao ativismo real.
Impulsionados pela vontade de explorarem narrativas com perspectivas diversas, os leitores se unem para fazer a leitura de obras como Água doce, de Akwaeke Emezi, livro nigeriano com uma abordagem não-europeia sobre gênero, que já faz parte da seleção de leituras de mais de três clubes neste ano.
Esse apoio coletivo é necessário para que obras trans tenham fôlego o suficiente para ocupar espaços historicamente negligenciados pelo mercado editorial em geral. Mais do que financiar livros, os clubes de leitura ajudam a sustentar ideias, vozes e imaginários. São a prova de que, ao apoiar uma narrativa, estamos também investindo na construção de novos horizontes culturais possíveis.
Que neste 29 de janeiro, o convite seja para uma ação que dure a vida toda: diversifique sua estante, apoie um autor independente e faça o exercício de enxergar o mundo através de outros olhares.





