Mistérios!, de Carlos Orsi, resgata o "crime impossível" com rigor científico e tradição literária

Coletânea reúne contos inéditos no Brasil, publicados originalmente em revistas anglófonas, traduzidos por Braulio Tavares e viabilizados por financiamento coletivo da Bandeirola Editora.

Mistérios! – Crimes de “quarto fechado”, nova coletânea de contos do escritor e jornalista brasileiro Carlos Orsi, tem atributos quase tão improváveis quanto desvendar os enigmas de cada uma das histórias que reúne. O livro traz ao Brasil narrativas de um subgênero da literatura policial pouquíssimo conhecido por aqui, publicadas originalmente nas mais respeitadas revistas anglófonas do segmento; foi traduzido para o português por um dos grandes nomes da literatura fantástica nacional; e, para completar o combo, tornou-se realidade graças a uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo.

Parece enredo de ficção, mas é fruto de uma parceria gestada há cerca de cinco anos entre o autor, a editora Sandra Abrano, da Bandeirola, e o escritor, poeta e compositor Braulio Tavares, responsável pela tradução da obra para o português. “A história da publicação começa em 2021, quando a Bandeirola lançou Crimes Impossíveis, antologia organizada por Braulio Tavares que apresentou ao público brasileiro as origens do locked room mystery”, lembra Abrano. “Desde então, a editora acalentava o projeto de publicar um livro solo de Carlos Orsi, um dos raros escritores brasileiros a criar histórias nesse subgênero conhecido como ‘crimes de quarto fechado’, e que vinha publicando seus contos nas mais prestigiosas revistas anglófonas do gênero.”

Quatro das cinco narrativas, todas inéditas no Brasil, foram originalmente escritas por Orsi em inglês e publicadas na norte-americana Ellery Queen Mystery Magazine, na canadense Mystery Magazine e na antologia britânica The MX Book of New Sherlock Holmes Stories. Ou seja, os contos precisariam ser traduzidos do inglês para o português – o que, na visão do autor, se feito por ele próprio, poderia resultar em novas histórias, descaracterizando o sentido original das narrativas.

É nesse ponto que entra o trabalho de Braulio Tavares, escritor, ensaísta, tradutor e compositor, parceiro de nomes consagrados da MPB como Lenine e vencedor de prêmios como o Caminho de Ficção Científica (Portugal), o Jabuti de Literatura Infantil e o Shell de Teatro. Braulio e Orsi se conhecem desde os anos 1990 e acompanham mutuamente suas trajetórias literárias há décadas.

Mais do que uma curiosidade editorial, a tradução tornou-se parte da identidade do livro. Segundo Orsi, a participação de Braulio acabou enriquecendo o texto, preservando a tradição formal do gênero e, ao mesmo tempo, adaptando-o com precisão ao leitor brasileiro.

“Esses contos foram escritos originalmente em inglês, para revistas anglófonas, e eu nunca considerei traduzi-los pessoalmente para o português”, afirma Orsi. “Não seria apenas uma tradução: eu acabaria reescrevendo os textos do zero. Começaria a pensar no que faz sentido na cultura brasileira, no que funciona diferente aqui, e isso desmontaria a lógica original das histórias. Virariam outros contos. Por isso, a tradução do Braulio foi fundamental: ele preserva a engenharia do ‘quarto fechado’, o quebra-cabeça como ele foi concebido.”

Subgênero basilar da ficção policial

Pouco explorado no Brasil, o locked room mystery, ou crime de “quarto fechado”, é um dos pilares da ficção policial clássica, introduzido por nomes como Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e G. K. Chesterton. Trata-se do verdadeiro “quebra-cabeça” da ficção policial, em que um crime ocorre em circunstâncias aparentemente impossíveis: portas trancadas por dentro, janelas lacradas, ausência total de pistas. O sobrenatural parece a única explicação até que a lógica, a ciência e a observação rigorosa entram em cena.

Um dos raríssimos escritores brasileiros a trabalhar com o subgênero, Orsi construiu uma trajetória singular cruzando fronteiras entre ficção científica, terror e divulgação científica. Fundador do Instituto Questão de Ciência (IQC), organização criada para promover o pensamento crítico, e editor-chefe da revista do instituto, sua predileção pelos crimes de quarto fechado surge justamente da conexão entre esse gênero e a racionalidade científica. Afinal, esses mistérios partem da aparência do impossível para, ao final, reafirmar a realidade objetiva, a causalidade e o materialismo.

“Eu vim, literariamente, do terror e da ficção científica, e esses gêneros sempre tiveram uma relação muito forte com a racionalidade. Com o tempo, fui percebendo que aquilo que mais me dava prazer estético neles aparecia de forma ainda mais intensa nas boas histórias de mistério, especialmente no crime de quarto fechado”, afirma. “É um gênero totalmente pé no chão, materialista: nada de sobrenatural, tudo precisa ter uma explicação concreta. É quase como um truque de mágica feito às claras. A pista está ali, às vezes esfregada na cara do leitor, mas ele não percebe. Isso, para mim, dialoga diretamente com o pensamento científico: questionar aparências, desconfiar do inexplicável e reconstruir a realidade a partir de causas reais.”

Em Mistérios! – Crimes de “quarto fechado”, o leitor encontra exatamente isso: não apenas enigmas bem construídos, mas uma verdadeira ode à razão, embalada pela tradição mais sofisticada da literatura policial.

Sobre o autor

Formado pela ECA-USP, Carlos Orsi foi editor de ciência, saúde e meio ambiente do Portal Estadão, colunista da revista Galileu e repórter e colunista no Jornal da Unicamp. Atua, também, como diretor de Comunicação do Instituto Questão de Ciência (IQC), onde edita a revista da organização. É autor de diversos livros de divulgação científica, entre eles O Livro dos Milagres, Negacionismo & Desafios da Ciência e O Livro da Astrologia.

Em 2021, recebeu o Prêmio Jabuti, na categoria Ciência, pela coautoria de Ciência no Cotidiano, escrito com a comunicadora de ciência e pesquisadora da Columbia University Natalia Pasternak, com quem também assina o best seller Que bobagemI: pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério.

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Mistérios! – Crimes de “quarto fechado”, nova coletânea de contos do escritor e jornalista brasileiro Carlos Orsi, tem atributos quase tão improváveis quanto desvendar os enigmas de cada uma das histórias que reúne. O livro traz ao Brasil narrativas de um subgênero da literatura policial pouquíssimo conhecido por aqui, publicadas originalmente nas mais respeitadas revistas anglófonas do segmento; foi traduzido para o português por um dos grandes nomes da literatura fantástica nacional; e, para completar o combo, tornou-se realidade graças a uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo.

Parece enredo de ficção, mas é fruto de uma parceria gestada há cerca de cinco anos entre o autor, a editora Sandra Abrano, da Bandeirola, e o escritor, poeta e compositor Braulio Tavares, responsável pela tradução da obra para o português. “A história da publicação começa em 2021, quando a Bandeirola lançou Crimes Impossíveis, antologia organizada por Braulio Tavares que apresentou ao público brasileiro as origens do locked room mystery”, lembra Abrano. “Desde então, a editora acalentava o projeto de publicar um livro solo de Carlos Orsi, um dos raros escritores brasileiros a criar histórias nesse subgênero conhecido como ‘crimes de quarto fechado’, e que vinha publicando seus contos nas mais prestigiosas revistas anglófonas do gênero.”

Quatro das cinco narrativas, todas inéditas no Brasil, foram originalmente escritas por Orsi em inglês e publicadas na norte-americana Ellery Queen Mystery Magazine, na canadense Mystery Magazine e na antologia britânica The MX Book of New Sherlock Holmes Stories. Ou seja, os contos precisariam ser traduzidos do inglês para o português – o que, na visão do autor, se feito por ele próprio, poderia resultar em novas histórias, descaracterizando o sentido original das narrativas.

É nesse ponto que entra o trabalho de Braulio Tavares, escritor, ensaísta, tradutor e compositor, parceiro de nomes consagrados da MPB como Lenine e vencedor de prêmios como o Caminho de Ficção Científica (Portugal), o Jabuti de Literatura Infantil e o Shell de Teatro. Braulio e Orsi se conhecem desde os anos 1990 e acompanham mutuamente suas trajetórias literárias há décadas.

Mais do que uma curiosidade editorial, a tradução tornou-se parte da identidade do livro. Segundo Orsi, a participação de Braulio acabou enriquecendo o texto, preservando a tradição formal do gênero e, ao mesmo tempo, adaptando-o com precisão ao leitor brasileiro.

“Esses contos foram escritos originalmente em inglês, para revistas anglófonas, e eu nunca considerei traduzi-los pessoalmente para o português”, afirma Orsi. “Não seria apenas uma tradução: eu acabaria reescrevendo os textos do zero. Começaria a pensar no que faz sentido na cultura brasileira, no que funciona diferente aqui, e isso desmontaria a lógica original das histórias. Virariam outros contos. Por isso, a tradução do Braulio foi fundamental: ele preserva a engenharia do ‘quarto fechado’, o quebra-cabeça como ele foi concebido.”

Subgênero basilar da ficção policial

Pouco explorado no Brasil, o locked room mystery, ou crime de “quarto fechado”, é um dos pilares da ficção policial clássica, introduzido por nomes como Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e G. K. Chesterton. Trata-se do verdadeiro “quebra-cabeça” da ficção policial, em que um crime ocorre em circunstâncias aparentemente impossíveis: portas trancadas por dentro, janelas lacradas, ausência total de pistas. O sobrenatural parece a única explicação até que a lógica, a ciência e a observação rigorosa entram em cena.

Um dos raríssimos escritores brasileiros a trabalhar com o subgênero, Orsi construiu uma trajetória singular cruzando fronteiras entre ficção científica, terror e divulgação científica. Fundador do Instituto Questão de Ciência (IQC), organização criada para promover o pensamento crítico, e editor-chefe da revista do instituto, sua predileção pelos crimes de quarto fechado surge justamente da conexão entre esse gênero e a racionalidade científica. Afinal, esses mistérios partem da aparência do impossível para, ao final, reafirmar a realidade objetiva, a causalidade e o materialismo.

“Eu vim, literariamente, do terror e da ficção científica, e esses gêneros sempre tiveram uma relação muito forte com a racionalidade. Com o tempo, fui percebendo que aquilo que mais me dava prazer estético neles aparecia de forma ainda mais intensa nas boas histórias de mistério, especialmente no crime de quarto fechado”, afirma. “É um gênero totalmente pé no chão, materialista: nada de sobrenatural, tudo precisa ter uma explicação concreta. É quase como um truque de mágica feito às claras. A pista está ali, às vezes esfregada na cara do leitor, mas ele não percebe. Isso, para mim, dialoga diretamente com o pensamento científico: questionar aparências, desconfiar do inexplicável e reconstruir a realidade a partir de causas reais.”

Em Mistérios! – Crimes de “quarto fechado”, o leitor encontra exatamente isso: não apenas enigmas bem construídos, mas uma verdadeira ode à razão, embalada pela tradição mais sofisticada da literatura policial.

Sobre o autor

Formado pela ECA-USP, Carlos Orsi foi editor de ciência, saúde e meio ambiente do Portal Estadão, colunista da revista Galileu e repórter e colunista no Jornal da Unicamp. Atua, também, como diretor de Comunicação do Instituto Questão de Ciência (IQC), onde edita a revista da organização. É autor de diversos livros de divulgação científica, entre eles O Livro dos Milagres, Negacionismo & Desafios da Ciência e O Livro da Astrologia.

Em 2021, recebeu o Prêmio Jabuti, na categoria Ciência, pela coautoria de Ciência no Cotidiano, escrito com a comunicadora de ciência e pesquisadora da Columbia University Natalia Pasternak, com quem também assina o best seller Que bobagemI: pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério.

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