A trilogia Aghora, do médico ayurvédico e pesquisador Robert E. Svoboda, acaba de ganhar sua primeira edição completa em português por meio de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. Considerada uma das obras mais rigorosas já escritas sobre a tradição aghora — vertente do tantra indiano frequentemente cercada por estereótipos — a trilogia reúne mais de mil páginas dedicadas à filosofia, às práticas espirituais e à ética dessa linhagem ancestral.
Escrita a partir da relação direta de Svoboda com o mestre Vimalananda, com quem conviveu entre 1975 e 1983, a obra apresenta um raro testemunho da tradição contado pela perspectiva de um aghori. Ao longo de oito anos, o autor atuou como discípulo, filho espiritual e escriba de Vimalananda, registrando ensinamentos que até então permaneciam restritos à transmissão oral e à vivência iniciática.
Estruturada como um corpo conceitual único, a trilogia se organiza em torno de três eixos fundamentais: o caminho espiritual da mão esquerda, a energia kundalini e o karma. Presente em bibliografias acadêmicas, cursos de estudos tântricos e pesquisas em antropologia do sagrado, Aghora se tornou referência internacional por apresentar a tradição para além do exotismo e da visão sensacionalista que frequentemente a acompanha no Ocidente.
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Uma tradição além do estereótipo
Associada, fora de contexto, a rituais extremos como práticas em campos de cremação ou o uso de substâncias consideradas impuras, a tradição aghora costuma ser reduzida a seus aspectos mais chocantes. A obra de Svoboda propõe o oposto: revela a sofisticação filosófica, ontológica e ética que fundamenta esses rituais, compreendidos como instrumentos de transformação espiritual.
Para os aghoris, não há separação entre sagrado e profano, puro e impuro. O mundo é entendido como um espaço de transição, e a prática espiritual consiste em atravessar aquilo que provoca medo ou repulsa sem se deixar dominar por essas experiências. Nesse sentido, aghora — termo sânscrito que pode ser traduzido como “ausência de escuridão” — designa uma disciplina voltada à integração total da existência.
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Os três volumes
O primeiro volume apresenta a história de Vimalananda e os fundamentos do caminho da mão esquerda, abordando temas como iniciação, devoção à Deusa Mãe (na forma de Smashan Tara) e o enfrentamento dos limites humanos como via de iluminação.
O segundo volume é dedicado à Kundalini Shakti, a energia criativa que habita todos os seres. A obra detalha o funcionamento dos chakras, dos canais energéticos (nadis) e das práticas de yoga e meditação que conduzem ao despertar dessa força, levando ao estado de equilíbrio e união com o absoluto.
Já o terceiro volume utiliza o universo das corridas de cavalo como metáfora para explorar o karma e os vínculos de dívida cármica (rnanubandhana). Aqui, o karma não aparece como punição ou recompensa, mas como uma rede complexa de relações, escolhas e consequências que atravessam indivíduos, famílias e territórios.
Uma publicação viabilizada pelo coletivo
O lançamento brasileiro da trilogia acontece por meio da oitava campanha de financiamento coletivo da Editora Palimpsestus, que há seis anos aposta no modelo colaborativo como forma de garantir qualidade editorial, tiragens cuidadas e remuneração justa para todas as pessoas envolvidas no processo.
Além dos três volumes, a campanha oferece recompensas exclusivas, como box especial, materiais gráficos inspirados na obra, um chapbook inédito de Svoboda sobre karma e livre-arbítrio, além de um workshop que conecta fundamentos do tantra e do kundalini yoga à magia contemporânea.
Ao apoiar o projeto, o público participa ativamente da viabilização de uma obra considerada fundamental para os estudos de espiritualidade, yoga, ocultismo, antropologia e filosofia indiana — e que, até agora, permanecia inacessível em língua portuguesa.



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